Postagens

Mostrando postagens com o rótulo Filosofia contemporânea

O conceito de indústria cultural na Dialética do esclarecimento, de Adorno e Horkheimer

Imagem
O conceito de indústria cultural serviu para designar, inicialmente, o complexo industrial e comercial de produção e distribuição de bens culturais na Europa e nos EUA desde a as primeiras décadas do século XX. Por este conceito não se deve compreender os dispositivos eletrônicos em si, tais como rádio, televisão ou revistas, mas sua apropriação pelo capitalismo monopolista e seu emprego através de uma lógica de produção de bens culturais. O objetivo inicial da indústria cultural era, além de lucrar com uma ótima oportunidade de negócios, também estabelecer padrões de comportamento em massa, já que a organização dos trabalhadores, forte naquela época, representava um perigo real ao capitalismo. Este sistema buscava não apenas influenciar a demanda por determinadas mercadorias, mas também tornar minimamente previsíveis o comportamento social e político das massas. O texto na Dialética do esclarecimento O principal texto em que a indústria cultural é discutida por Adorno e Horkheimer é u...

Filosofia e política, de Hannah Arendt - o conflito do filósofo com a pólis

Imagem
Filosofia e Política , de Hannah Arendt, constitui a terceira parte de uma palestra sobre os problemas da teoria e da prática após a Revolução Francesa, proferida em 1954. Neste texto Arendt reflete sobre a relação entre filosofia e política desde a Grécia antiga e também considera o papel aí ocupado pelo filósofo. Arendt afirma que o abismo que separa filosofia e política se originou com o julgamento e a condenação de Sócrates. Depois deste traumático fato as duas áreas nunca mais caminharam juntas, fazendo-se uma exceção a Kant. Platão se desiludiu com a política ao constatar que Sócrates não conseguiu convencer nem seus juízes, nem seus amigos. A verdade do filósofo na pólis torna-se apenas mais uma opinião entre opiniões. O filósofo, portanto, se retira da cidade, na qual, a propósito, também não é bem-vindo, ao contrário dos artistas e poetas. Lá ele corre também risco de morrer. Algumas das consequências do julgamento e da condenação de Sócrates para Platão foi seu desprezo ...

Ser e verdade em Heidegger: a metafísica e o esquecimento do ser

Imagem
Ser e tempo , de Heidegger, figura como um dos livros mais importante da filosofia dos últimos três séculos. Publicada em 1927, esta obra pode ser caracterizada como um programa de destruição da metafísica, o que Derrida chama de “projeto de desconstrução”. Heidegger, um anticartesiano, desenvolve aqui uma crítica da filosofia moderna, e em especial da divisão sujeito-objeto. Embora extremamente influente em diversas áreas do saber por todo o século XX, Ser e tempo teve sua tradução iniciada no Brasil por Fausto Castilho na década de 1940, mas só foi publicada em 2012.  A metafísica, segundo Heidegger, se caracterizaria pelo esquecimento da questão do ser. A afirmação pode parecer paradoxal, mas por "metafísica" Heidegger tem uma compreensão ampla, compreendendo a história da filosofia ocidental. Será a diferença entre ser e ente o que levará Heidegger a dar um “passo atrás” em relação à metafísica tradicional: ao invés de se voltar, como esta, ao ente, ele se volta a...

Lógica filosófica

Imagem
Ao invés de seguir a gramática cegamente, o lógico deve, ao contrário, ver sua tarefa como sendo a de nos libertar dos grilhões da linguagem (Frege, 1897:143) A velha lógica colocou o pensamento em grilhões, enquanto a nova nos dá asas. (Russell, 1914:68) 1. Introdução O primeiro uso da frase “lógica filosófica” de que tomei conhecimento está em um ensaio semipopular de Bertrand Russell chamado Lógica como a essência da filosofia (1914). Russell e outros vinham praticando a lógica filosófica por anos, mas não foi até este ensaio que Russell identificou e rotulou o que ele considerava ser uma abordagem distintiva da filosofia como um todo. A lógica filosófica, como Russell a concebeu, era o programa de resolução de problemas filosóficos tradicionais através da descoberta e da classificação de formas lógicas, e esta preocupação com formas lógicas se tornou uma característica central e peculiar da filosofia analítica no século XX. Filósofos analíticos fazem outr...

Foucault, poder pastoral e governamentalidade

Imagem
Resumo Neste artigo pretendemos demonstrar como a análise do poder pastoral, no contexto da investigação foucaultiana da governamentalidade, sugere que as tecnologias de poder do estado moderno foram legadas, transmitidas pela igreja cristã. Haveria uma imbricação entre o estado moderno e a igreja que remontaria – o que parece paradoxal - justamente ao momento de ruptura entre estado e igreja, no século XVI. Seria neste período que a relação entre ambos seria mais forte no que diz respeito às práticas de poder, entrando um elemento religioso no campo da política. Este elemento é o poder pastoral. Introdução É na genealogia do poder pastoral que Foucault vai buscar o tipo de poder que corresponde ao ato de governar. O poder pastoral é um poder apolítico, e seu objetivo principal é salvar o rebanho. É um tipo de poder que pode ser chamado de oblativo: quem o exerce tem sempre em vista o bem do outro, visa a parte, e não o todo.  Foucault o considera decisivo no mov...

Lukács e a consciência de classe

Imagem
No vídeo abaixo faço uma breve apresentação sobre o conceito de consciência de classe em Lukács.

A imutabilidade de Deus em "A República", de Platão, e a análise lógica de Boole

Imagem
Argumentos longos e complexos constituem um desafio à verificação de sua formação e validade, demandando tempo, atenção e rigor para que sejam testados. Apresentamos, abaixo, um exemplo de como aplicar uma análise lógica em um argumento extenso a fim de verificar sua coerência. O texto foi extraído do Livro II de A República , de Platão, e apresenta um diálogo entre Sócrates e Adimanto, no qual o filósofo de Atenas argumenta que Deus é imutável. Logo após apresentamos a formalização deste argumento realizada pelo lógico George Boole, já no século XIX, a qual revela a impecável  forma do raciocínio de Platão. Sócrates — Vejamos agora a segunda regra. Acreditas que Deus seja um mágico capaz de assumir, perfidamente, formas variadas, ora de fato presente e transformando a sua imagem numa infinidade de figuras diferentes, ora enganando-nos e mostrando de si mesmo apenas simulacros sem realidade? Não será antes um ser simples, de todo incapaz de deixar a forma que lhe é própr...

A pseudo-atividade política em "Resignation", de Theodor Adorno

Imagem
O conceito de pseudo-atividade foi inicialmente utilizado por Adorno para se referir a atividades que, embora possuam uma aparência de autonomia, são orientadas, direcionadas, ditadas, induzidas pela lógica de subordinação de todos os aspectos da existência humana ao capital. As pseudo-atividades dão ao indivíduo uma sensação de autenticidade quando, na verdade, ele está apenas se adequando a um esquema já pré-estabelecido. Um exemplo de pseudo-atividade seriam as atividades de tempo livre ou de férias oferecidas por empresas de turismo. O mundo administrado tem a tendência de eliminar toda espontaneidade, de canalizá-la em pseudo-atividades. Em Resignation , Adorno irá argumentar que também ações políticas podem se degenerar ( absinken ) em pseudo-atividades, em teatro. Resignation , de Adorno, é o último texto do filósofo alemão, no qual ele retoma – agora no campo da política - o conceito de pseudo-atividade. Este breve discurso, originalmente proferido em um programa de rádi...

A morte em Heidegger e a crítica de Sartre

Imagem
1     Introdução A resposta à pergunta "o que você faria se este fosse o último dia de sua vida?" revela aquilo com o que mais nos importamos, como realmente queremos viver nossas vidas. O que fazer se as próximas vinte e quatro horas forem as últimas? Andar sem roupas pelas ruas? Dizer algumas verdades ao vizinho? Passar o tempo com a família? Estudar filosofia?  (POLT, 1999, p. 86) O indivíduo, ao viver cada dia como se fosse o último, não perderia tempo com gestos vazios, mas se concentraria em ser ele mesmo. A sensação de iminência da morte faz com que a vida corra diante dos olhos, momento no qual a história de cada um é revista como um todo, e suas vitórias e seus fracassos são contabilizados. Ao sentir a fragilidade da vida sentimos também seu significado, de modo que a morte faz com que cada um encare a si mesmo. A certeza da morte seria, por isso, libertadora, pois livra-nos das trivialidades da vida cotidiana (POLT, 1999, p. 86). Imbricada a ...