Filosofia e política, de Hannah Arendt - o conflito do filósofo com a pólis


Filosofia e Política, de Hannah Arendt, constitui a terceira parte de uma palestra sobre os problemas da teoria e da prática após a Revolução Francesa, proferida em 1954. Neste texto Arendt reflete sobre a relação entre filosofia e política desde a Grécia antiga e também considera o papel aí ocupado pelo filósofo.

Arendt afirma que o abismo que separa filosofia e política se originou com o julgamento e a condenação de Sócrates. Depois deste traumático fato as duas áreas nunca mais caminharam juntas, fazendo-se uma exceção a Kant.

Platão se desiludiu com a política ao constatar que Sócrates não conseguiu convencer nem seus juízes, nem seus amigos. A verdade do filósofo na pólis torna-se apenas mais uma opinião entre opiniões. O filósofo, portanto, se retira da cidade, na qual, a propósito, também não é bem-vindo, ao contrário dos artistas e poetas. Lá ele corre também risco de morrer. Algumas das consequências do julgamento e da condenação de Sócrates para Platão foi seu desprezo pela doxa e um anseio por padrões absolutos. Platão foi o primeiro a usar ideias (padrões absolutos) na política.

Uma das principais contradições decorrentes desta separação foi a oposição entre verdade e opinião, entre epistheme e doxa, que seria uma das conclusões mais antisocráticas de Platão. O que caracteriza o espectro político é a opinião. Com a condenação de Sócrates restou claro, para Platão, que a pólis não sabe o que é bom para si. Somente o filósofo poderia saber o que é bom para a cidade, e surge então a figura do filósofo rei. O homem de phronimos tem insights para liderar, mas não para governar. Por isso Platão afirma que o filósofo, mesmo se preocupando apenas com coisas eternas e imutáveis, podia também desempenhar um papel político. Além disso, as coisas eternas eram mais valiosas que belas, e por isso Platão deu prioridade, em seu pensamento, à ideia do bem, não à do belo, como era comum na Grécia. O bem pode ser posto em utilidade, mas o belo apenas brilha.

Os filósofos se refugiam na tirania da verdade. Os diálogos platônicos que tratam da política terminam sempre com um mito amedrontador, que ameaça com punição e castigos. Platão quer com isso vencer pelo medo. O filósofo busca construir um modelo ideal e implementá-lo na prática, transformando a práxis em techné, em fabricação. O fato de filósofos tenderem a se aproximar de ditadores não é casual, como nos casos de Platão e Heidegger. A verdade eterna é que deve governar a pólis, da qual os homens não podem ser persuadidos. A persuasão vem das opiniões, não da verdade: é também uma forma de violência, não o seu oposto. Sócrates queria tornar a cidade mais verdadeira, extraindo a verdade da doxa de cada um. Ao contrário de Platão, ele pensa que o filósofo precisa ser o moscardo da cidade, não o seu governante.

A questão da amizade é fundamental para a política, pois o insight político por excelência é ver o mundo do ponto de vista do outro. A única virtude importante do estadista é compreender o maior número possível de realidades.  Para Sócrates, a função política do filósofo era estabelecer um mundo comum sobre a base da amizade, sem necessidade de governo. Arendt considera que Aristóteles, ao abordar o tema, está criticando Platão e retornando a Sócrates. A amizade é mais importante até mesmo que a justiça, pois onde há a primeira a segunda é desnecessária. A desilusão de Platão em relação à política se deu, de certa forma, porque Sócrates tentava tornar amigos os cidadãos da pólis. A pluralidade dos homens não pode ser abolida, pois ainda que vivesse sozinho, viveria na condição de pluralidade comigo mesmo e teria que me suportar. Refugiar-se na solidão total é entregar-se da forma mais radical à pluralidade inerente ao ser humano – é a companhia dos outros que me faz novamente ser um.

Viver com os outros, por sua vez, começa por viver junto a si mesmo. Somente quem sabe viver consigo mesmo está apto a viver com os outros. Isso funda a Ética, assim como a Lógica. Na pólis os homens não apenas são, mas também aparecem. Aparecer é fundamental para os gregos, e se relacionava à vida pública, pois quem está em casa (mulheres e escravos, por exemplo) não aparece. Poderia um ato ser considerado bom se não aparecesse, se não fosse visto por ninguém? Para Sócrates devemos ser para nós como aparecemos para os outros. Nunca estamos sós, pois estamos sempre conosco. Ninguém quer se tornar um assassino, mesmo que ninguém tome conhecimento deste ato, pois ninguém quer conviver com um assassino. Se cometo um assassinato, tenho que tolerar a companhia de um assassino, e passo a enxergar todos os outros a partir de meus parâmetros, de meus padrões, isso é, projeto a mim mesmo nos outros, vendo a todos como potenciais assassinos. Esta é a doxa, a forma como o mundo se abre para ele. Ser um assassino sem que ninguém o saiba não permite ao assassino ser feliz, pois ele mostra querer viver com quem não pode concordar. Contradição lógica e má-consciência ética estão unidas para Sócrates, e por esta razão é que a virtude pode ser ensinada. O homem é um ser pensante e atuante em um: pensamento e ação andam juntos.

A solidão é condição necessária para a vida na pólis. O totalitarismo elimina a possibilidade de estar só. Nestas condições as formas de consciência são abolidas, e a consciência moral não permanece intacta quando não há o estar só.

Buscar a verdade na doxa, como queria fazer Sócrates, pode levar à destruição da própria doxa. É como no caso de Édipo em que toda sua doxa (opinião, glória, fama) foi destruída ao saber a verdade. A verdade pode destruir a realidade política específica dos cidadãos, e também destruir todas as opiniões sem oferecer nada em seu lugar, como acontece nos diálogos aporéticos de Platão.

O conflito entre filosofia e política teve como uma de suas causas o fato de Sócrates tentar tornar a filosofia útil para a pólis. Após Sócrates o filósofo deixa a cidade, como Aristóteles fugiu ao ser ameaçado. Os filósofos deixam de se sentir responsáveis por ela. Esta não é uma questão histórica momentânea, pois seus efeitos já duram 2.500 anos.

Toda filosofia política expressa a atitude do filósofo em relação aos assuntos dos homens, e se deparam com duas alternativas: ou interpretar a experiência filosófica com categorias de origem do mundo dos homens ou reivindicar prioridade para a filosofia. Nesta última, o melhor estado é aquele que oferece melhores condições para o filosofar. Se um filósofo chegar ao poder, fará aos cidadãos o que sempre fez ao seu corpo: o governará como a um escravo. O ditado “só sabe comandar quem sabe obedecer”, muito utilizado entre os meios militares, tem suas raízes no conflito entre filosofia e política. O conflito corpo e alma também tem aí suas raízes.

Não só estes, mas também o mito da caverna, de Platão, tem suas raízes no conflito entre filosofia e política. Este mito é uma biografia condensada do filósofo, e pode ser dividido em três etapas. A primeira pode ser chamada como a do cientista, na qual se pretende ver como as coisas são em si mesmas. As imagens na parede são doxa. Na segunda, quer-se ir além, descobrir de onde vem o fogo que ilumina os objetos e as causas das coisas, e então aparecem as ideias, o que é o clímax na vida do filósofo. Na terceira temos a tragédia: ter que retornar à caverna por não pertencer a este mundo que contemplou. Tem-se uma perda de sentido e orientação quando se passa de uma esfera à outra. O filósofo não consegue se acostumar com a escuridão novamente, e por isso é alienado do mundo dos homens, pois perdeu o senso comum. Os habitantes da caverna são estáticos. Em toda a parábola estão ausentes as palavras lexis e práxis (lei e ação). Eles apenas olham. Esta alegoria mostra como a política é vista pelo filósofo.

Neste mito Platão não conta o que distingue os filósofos de quem só vê pelo prazer de ver, o que dá início à sua libertação. Menciona de passagem, ao final, que o filósofo deve assumir o governo. Ele não menciona também por que não é seguido, por que não consegue persuadir os cidadãos.

No Teeteto ele mostra que o filósofo sofre do espanto, que é um pathos, alguém que se sofre (diferente da doxa, que é formada). Tanto para Platão quanto para Aristóteles a verdade última está além das palavras. Ele só pode ser traduzido em forma de perguntas últimas. Se o homem perde a capacidade de fazer estas perguntas irrespondíveis, perde também a capacidade de fazer as perguntas respondíveis.

Aquilo que diferencia o filósofo é o espanto, o thaumadzein. Esta experiência, por ser incomunicável, leva o filósofo ao silêncio, a saber que não sabe nada, enquanto que, no âmbito social, todos querem opinar sobre tudo. Não é que apenas o filósofo a experimenta. A diferença é que apenas o filósofo lhe dá continuidade.

A filosofia começa no espanto e termina com a mudez, ou seja, termina onde começou. A diferença entre o filósofo e a multidão é que esta última se recusa a experimentar este pathos. A doxa é o oposto do espanto. O conflito do filósofo com a pólis se dá quando este faz perguntas que surgem do espanto. Como a experiência última do filósofo é a mudez, ele se coloca fora da pólis. Ele entra com conflito com as opiniões e está em desvantagem, pois não tem uma doxa para competir na multidão.

O filósofo destrói dentro de si a singularidade da condição humana ao tentar prolongar indefinidamente, ao tentar tornar modo de vida aquela singularidade do espanto.

A filosofia política se originou do espanto. O objeto de seu espanto teria que ser a pluralidade do homem, da qual surge todos os assuntos humanos.

Glauber Ataide

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