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Mostrando postagens de 2014

Trecho de uma entrevista de Theodor Adorno à revista Der Spiegel

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Trecho selecionado por mim como um dos candidatos ao prêmio de Melhor Início de Entrevista de todos os tempos. SPIEGEL: Senhor professor, até duas semanas atrás o mundo ainda parecia em ordem... ADORNO: A mim não. SPIEGEL:  (Entrevista de Theodor Adorno à revista alemã Der Spiegel, em maio de 1969)

Adicionar letra ao MP3

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O post desta vez é um pouco diferente dos temas geralmente abordados neste blog, mas gostaria de compartilhar algo que me foi muito útil. Você sabia que é possível armazenar a letra de uma música no próprio arquivo MP3? Ok, mas pra que alguém iria querer isso? No meu caso foi pelo seguinte: é que eu ouço LOTS OF music nos idiomas que estudo. Isso é uma forma muito efetiva de  se expandir o vocabulário, e até mesmo de melhorar a pronúncia, quando também cantamos as músicas. Mas nem sempre estou em frente do computador para ter acesso às letras que ainda não sei de cor ou que não consigo compreender. Tipo naquelas 3 horas que perco diariamente dentro de um ônibus coletivo, indo e voltando do trabalho... Então sempre procuro fazer algo produtivo nessas valiosas horas, e uma delas é ouvir músicas em alemão ou francês. Descobri então que nos celulares e dispositivos que rodam o sistema Android, a letra da música é exibida se ela estiver armazenada no arquivo MP3. E foi então ...

O ódio ao PT e os "dois minutos do ódio" em 1984, de George Orwell

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Quem já leu a obra 1984 , de George Orwell, deve se lembrar de um estranho "ritual" em que as pessoas eram obrigadas a participar diariamente: o chamado "Dois minutos do ódio". Este consistia na exibição, em uma "teletela" (uma espécie de televisão que também filma o telespectador), da imagem e da fala de Emanuel Goldstein, o líder exilado da oposição ao governo totalitário do Grande Irmão (Big Brother), juntamente com outros opositores do "Partido" (como é chamado o partido do Big Brother, o Ingsoc). Durante os "Dois minutos do ódio", as pessoas são levadas a um estado de exaltação histérica, de muita raiva, de ódio, onde proferem insultos e ameaças contra a imagem exibida na teletela. Algumas vezes os telespectadores partem até mesmo para a agressão física contra o aparelho. Um dos aspectos mais impressionantes sobre este mecanismo de manipulação e de indução ao ódio, no entanto, é que não poderia ser apenas o conteúdo do d...

Um problema de tradução da Martin Claret - O Anticristo, de Nietzsche

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Semestre passado estudei O Anticristo , de Nietzsche, na universidade. Acompanhei o curso com as edições que eu já tinha da obra: uma em português, da editora Martin Claret, e o original em alemão. Ao chegar ao aforismo 7 fiquei estarrecido com quantos trechos simplesmente estavam  faltando na edição brasileira (sublinhei de vermelho, na foto abaixo da edição alemã, os trechos que não foram traduzidos )!   Primeiramente eu pensei que poderia ser algum problema de ordem meramente técnica da edição, mas não dá pra explicar por que a tradução "salta" de um ponto para outro assim. E o trecho assinalado com uma interrogação indica que no português há uma tradução estranha,  a qual parece mais um "resumo" do que uma tradução propriamente dita.

Contando histórias dos Irmãos Grimm para minha filha

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Há alguns anos que leio as histórias dos irmãos Grimm para minha filha à noite (são mais de 200), e à medida que ela cresce aumenta sua percepção e compreensão de algumas coisas antes não questionadas. Logo na primeira frase da história de ontem ("Era uma vez um lenhador muito pobre que...") ela me interrompeu: "Pai, peraí: por que toda história começa falando de alguém que é muito pobre?" E eu não pude deixar de inserir um elemento crítico em relação aos desenhos de princesa da Disney que ela conhece: "Filha, porque a maioria das pessoas no mundo é pobre e trabalhadora, e essas histórias e folclores que os irmãos Grimm escreveram eram contados pelo povo. Você por acaso conhece alguma princesa igual aos desenhos da Disney? Tem alguma coleguinha sua assim na escola? A maioria dos pais são pobres e saem de casa bem cedo pra trabalhar e voltam só à noite, como o lenhador." Isso a fez comparar tanto sua vida quanto a de suas coleguinhas com alguns desses de...

Posso escrever os versos mais tristes esta noite, de Pablo Neruda

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Posso escrever os versos mais tristes esta noite. Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada, e tiritam, azuis, os astros lá ao longe". O vento da noite gira no céu e canta. Posso escrever os versos mais tristes esta noite. Eu amei-a e por vezes ela também me amou. Em noites como esta tive-a em meus braços. Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito. Ela amou-me, por vezes eu também a amava. Como não ter amado os seus grandes olhos fixos. Posso escrever os versos mais tristes esta noite. Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi. Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela. E o verso cai na alma como no pasto o orvalho. Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la. A noite está estrelada e ela não está comigo. Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe. A minha alma não se contenta com havê-la perdido. Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a. O meu coração procura-a, ela não está comigo. A mesma noite que faz branquejar as mesmas árv...

Se eu morresse amanhã, de Álvares de Azevedo

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Se eu morresse amanhã (Álvares de Azevedo) Se eu morresse amanhã, viria ao menos Fechar meus olhos minha triste irmã; Minha mãe de saudades morreria Se eu morresse amanhã! Quanta glória pressinto em meu futuro! Que aurora de porvir e que amanhã! Eu perdera chorando essas coroas Se eu morresse amanhã! Que sol! que céu azul! que doce n'alva Acorda a natureza mais louçã! Não me batera tanto amor no peito Se eu morresse amanhã! Mas essa dor da vida que devora A ânsia de glória, o doloroso afã... A dor no peito emudecera ao menos Se eu morresse amanhã!

Albert Camus: se eu me matasse, descobriria então que não tenho amigos

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"Como sei que não tenho amigos? É muito simples: eu o descobri no dia em que pensei em matar-me para lhes pregar uma boa peça, para puni-los, de certa forma. Mas punir quem? Alguns ficariam surpreendidos; ninguém se sentiria punido. Compreendi que não tinha amigos. Além disso, mesmo se os tivesse, não adiantaria nada. Se eu pudesse suicidar-me e ver em seguida a cara deles, então, sim, valeria a pena." (Albert Camus, "A queda")

Freud e a melancolia: por que precisamos adoecer para saber a verdade sobre nós mesmos?

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No trecho abaixo Freud descreve algumas características da melancolia e sua relação com o luto. A melancolia, grosso modo, se instala a partir da perda do objeto - como o término de um relacionamento, por exemplo. Freud faz então uma afirmação interessante: a baixa auto-estima que o melancólico apresenta, assim como suas recriminações a si próprio, não são de todo erradas; a questão é saber por que as pessoas precisam adoecer para ter acesso a tais verdades sobre si próprias. "O melancólico exibe ainda uma outra coisa que está ausente no luto — uma diminuição extraordinária de sua auto-estima, um empobrecimento de seu ego em grande escala. No luto, é o mundo que se torna pobre e vazio; na melancolia, é o próprio ego. O paciente representa seu ego para nós como sendo desprovido de valor, incapaz de qualquer realização e moralmente desprezível; ele se repreende e se envilece, esperando ser expulso e punido. Degrada-se perante todos, e sente comiseração por seus próprios paren...

Análise de um caso de histeria - o caso Katharina

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O texto abaixo é a análise feita por Freud de uma jovem com evidentes sintomas histéricos. Não é um caso clínico completo, haja vista que se resumiu a apenas um encontro. No entanto, para aqueles que nunca leram um caso clínico de Freud, este pequeno relato serve como uma introdução a este tipo de seus escritos, contando para isso com a vantagem de ser o menor encontrado em suas obras (apenas 9 páginas). Nesta época a psicanálise dava seus primeiros passos, e Freud ainda fazia uso da hipnose, técnica que, embora mencionada, ele não utilizou neste caso e veio a abandonar posteriormente. Caso 4 - O caso Katharina Nas férias de verão do ano de 189.. fiz uma excursão ao Hohe Tauern para que por algum tempo pudesse esquecer a medicina e, mais particularmente, as neuroses. Quase havia conseguido isso quando, um belo dia, desviei-me da estrada principal para subir uma montanha que ficava um pouco afastada e que era renomada por suas vistas e sua cabana de hospedagem bem administrada. A...

Alternemos a solidão e o mundo

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"É preciso frequentemente recolhermo-nos em nós mesmos: pois a relação com pessoas diferentes demais de nós perturba o nosso equilíbrio, desperta nossas paixões, irrita nossas restantes fraquezas e nossas chagas ainda não completamente curadas. "Misturemos, portanto, as duas coisas: alternemos a solidão e o mundo. A solidão nos fará desejar a sociedade e esta nos reconduzirá novamente a nós mesmos; elas serão antídotas, uma à outra: a solidão curando nosso horror à multidão, e a multidão curando nossa aversão à solidão." (Sêneca, Da tranquilidade da alma )

A morte e a memória

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Sócrates dizia que o medo da morte é ignorância, presunção de saber. Afinal, quem poderá dizer se a morte não é algo melhor que a vida? E se não sabemos isso, por que então teme-la? Assim nos diz o ateniense: “Pois que, ó cidadãos, o temer da morte não é outra coisa que parecer ter sabedoria, não tendo. É de fato parecer saber o que não se sabe. Ninguém sabe, na verdade, se por acaso a morte não é o maior de todos os bens para o homem, e entretanto todos a temem, como se soubessem, com certeza, que é o maior dos males. E o que é senão ignorância, de todas  a mais reprovável, acreditar saber aquilo que não se sabe? Eu,  por mim, ó cidadãos, talvez nisso seja diferente da maioria dos homens, eu diria isto: não sabendo bastante das coisas do Hades, delas não fugirei.” (Platão, Apologia de Sócrates) Mas o que exatamente tememos na morte, se a reflexão nos mostra que este medo é irracional, remontando suas determinações às mais profundas e inescrutáveis regiões de nossa ...

O "inferno" a que Jesus se referia

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A imagem construída sobre o inferno a partir das descrições encontradas nos Evangelhos, as quais o caracterizam como um lugar de total escuridão, vermes, destruição e permanentemente em chamas, tem alimentado a imaginação e o medo dos homens no ocidente por vários séculos. Mas essa concepção, mesmo em seus detalhes, não deixa de levantar problemas que exigem uma reinterpretação dos textos dos quais se pensa ter uma composição exata deste lugar. Um desses pormenores, por exemplo, é a coexistência de uma total escuridão em um lugar no qual o fogo nunca se apaga. Como pode haver escuridão total em um lugar cujas chamas são inextinguíveis? "E, se o seu olho o fizer tropeçar, arranque-o. É melhor entrar no Reino de Deus com um só olho do que, tendo os dois olhos, ser lançado no inferno, onde o seu verme não morre, e o fogo não se apaga. (Marcos 9:47-48) Diante dessa e de muitas outras dificuldades, devemos nos perguntar se as referências bíblicas a esse lugar são realm...