Pobre de direita – por que isso não deveria nos surpreender

Uma compreensão adequada sobre si mesmo é fundamental para o bem viver. Aquele que não segue a máxima socrática do “conhece-te a ti mesmo” não sabe seu lugar no mundo, ignora de onde vem, desconhece o que fazer e também o que esperar. Descobrir quem somos envolve não somente um conhecimento de nossa trajetória individual, mas também de nosso passado coletivo: todos nós temos uma história também enquanto povo e como membro de uma classe social determinada, de modo que nossa consciência deve refletir igualmente este outro aspecto de nossa identidade.

Um indivíduo sem memória não possui identidade. Se você perdesse sua memória hoje e pudesse se lembrar apenas das últimas 24 horas, você não saberia seu nome, quem são seus pais, de onde veio, o que já estudou ou o que já fez profissionalmente. O mesmo acontece também no aspecto social, de tal maneira que se não conheço a história da classe social à qual pertenço, não tenho nem identidade e nem orientação no mundo. O lugar que ocupamos na sociedade define não apenas quem somos, mas também nossas metas e forma de ação. O que haveria em comum, por exemplo, nos objetivos de vida de um banqueiro e de um auxiliar de serviços gerais?

Os ricos sempre sabem que são ricos. É muito raro encontrar algum milionário agindo contrariamente ao seu próprio ser social por pura ignorância, mas infelizmente não é este o caso com todos os pobres. Por qual razão indivíduos precarizados defendem às vezes interesses que são prejudiciais e diametralmente opostos ao seu próprio ser social? Neste texto investigamos não somente tais questões, mas também por que nos espantamos com tal fato e por qual razão nos colocamos tais perguntas. Seria mesmo tão absurdo ou antinatural que um pobre defenda os interesses dos ricos?

Temos a ideia de que os pobres, principalmente aqueles em condições muito precárias de vida, deveriam estar mais próximos de desenvolver consciência de classe. Vamos compreender que quando achamos estranho haver pobres de direita, há um problema também com nossa própria consciência, pois nosso estranhamento surge justamente de uma falsa expectativa sobre a relação entre nossa consciência e o mundo que experimentamos à nossa volta.

A ideologia em Marx e Engels

Cada época histórica tem um determinado conjunto de ideias, uma determinada concepção do mundo. Por que as pessoas não pensam sempre as mesmas coisas, independente de país, cultura ou época histórica? Por que nós não pensamos hoje como as pessoas da Idade Média pensavam? Ou ao contrário, por que as pessoas da Idade Média não pensavam como nós pensamos hoje? O materialismo histórico de Marx e Engels explicam a questão da seguinte forma:

"A consciência, consequentemente, desde o início é um produto social, e o continuará sendo enquanto existirem homens. A consciência é, antes de tudo, mera consciência do meio sensível mais próximo e consciência de uma interdependência limitada com as demais pessoas e coisas que estão situadas fora do indivíduo que se torna consciência."

A consciência comum de uma determinada época, no entanto, não expressa as relações sociais da forma como elas realmente são. Essa consciência é uma expressão das relações ideais da classe dominante, que por dominar materialmente, domina também espiritualmente:

"As ideias da classe dominante são, em todas as épocas, as ideias dominantes; ou seja, a classe que é a força material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo sua força espiritual dominante. A classe que dispõe dos meios de produção material dispõe também dos meios de produção espiritual, o que faz com que sejam a ela submetidas, ao mesmo tempo, as ideias daqueles que não possuem os meios de produção espiritual.”

Quando Marx e Engels falam sobre os “meios de produção espiritual”, podemos relacionar diretamente com nossa sociedade hoje: quem são os donos dos canais de televisão? Quem manda na produção do cinema de Hollywood? Quem são os donos dos principais jornais, sejam impressos ou online? Quem são os donos das principais editoras?

Para manter a estrutura da sociedade na qual domina sempre a mesma, as classes dominantes precisam

“apresentar seus interesses como sendo o interesse comum de todos os membros da sociedade; ou seja, para expressar isso em termos ideais; é obrigada a dar às suas ideias a forma de universalidade, a apresentá-las como as únicas racionais e universalmente legítimas."

Quando a burguesia quer convencer o povo de seus próprios interesses, ela afirma que isso é do interesse de todos, e não apenas dela. É por isso que ela tenta convencer o pobre que é bom ter direitos trabalhistas reduzidos ou retirados, e que os sindicatos de trabalhadores apenas atrapalham o funcionamento do mercado:

“As ideias dominantes, são, pois, nada mais que a expressão ideal das relações materiais dominantes, são essas as relações materiais dominantes compreendidas sob a forma de ideias; são, portanto, a manifestação das relações que transformam uma classe em classe dominante; são dessa forma, as ideias de sua dominação."

Nas obras de Marx e Engels, o conceito de ideologia pode ser compreendido como uma falsa consciência, mas não apenas isso: é um tipo de falsa consciência que visa justificar, manter, solidificar e promover o capitalismo, como se tal modo de produção fosse o mais natural e conforme à razão.

O realismo capitalista

Já aprendemos que as ideias dominantes de uma época sempre foram as ideias da classe dominante daquela época. A classe que possui os meios de produção material são donas também dos meios de produção espiritual, de modo que a conclusão inescapável é que, em nossa época, as ideias dominantes são da burguesia, a classe que hoje é dona das fábricas, das terras, dos bancos e de todo o mercado financeiro.

O revolucionário russo Vladimir Lênin afirma em sua obra O que fazer? que a burguesia possui meios de difusão incomparavelmente mais poderosos de sua ideologia quando comparada com os trabalhadores. A classe operária também possui sua visão de mundo, que é o marxismo, mas os trabalhadores não possuem à sua disposição os mesmos meios de difusão que a burguesia possui, tais como gráficas, canais de televisão, editoras, Hollywood, emissoras de rádio, jornais, etc. Em uma nota de rodapé, Lênin ainda acrescenta: “a ideologia burguesa, a mais difundida [...], é contudo aquela que mais se impõe espontaneamente aos operários.”

O discurso burguês não precisa ser ensinado de maneira formal nas escolas. Isso é algo que se aprende no cotidiano, lendo os jornais ou assistindo qualquer filme de Hollywood. A chamada indústria cultural, como definida por Theodor Adorno e Max Horkheimer, visa exatamente massificar os indivíduos, criar homens e mulheres dóceis e que não questionam. 

A maioria dos filmes consumidos pela classe trabalhadora reproduz a ideologia burguesa. Quando falamos em “ideologia burguesa”, no entanto, não queremos dizer, de maneira infantil ou conspiratória, que há um burguês escrevendo o roteiro, ou pagando para que alguém escreva exatamente o que ele pensa. Não é assim que uma ideologia atua numa formação social, a coisa se passa de forma muito mais natural. Quando os roteiristas escrevem um roteiro reproduzindo o espírito do tempo e reafirmando o status quo, eles apenas reproduzem as ideias dominantes que todos nós capturamos“no ar”, por assim dizer, e isso é parte do que Mark Fisher chama de realismo capitalista.

Fisher define o realismo capitalista como a atmosfera cultural penetrante que determina não apenas a produção de cultura, mas regula também o trabalho e a educação. Esta atmosfera cultural atua como uma barreira que limita nosso pensamento e nossa ação. O interessante é que este realismo capitalista não exclui a própria crítica do capitalismo – ele incorpora também, muitas vezes, uma forma de anticapitalismo, o que Adorno e Horkheimer também já haviam identificado em sua análise da indústria cultural.

Uma das características das obras de realismo capitalista é que elas não enxergam ou não apresentam alternativas ao capitalismo, o qual só chega ao fim se também o planeta for destruído. É por isso que Fischer também se pergunta, logo no início de sua obra Capitalist realism: is there no alternative?, pela razão de ser mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. Neste sentido, tais produtos da indústria cultural expressam uma limitação da consciência de classe burguesa como descrita por Georg Lukács em História e consciência de classe.

O filósofo húngaro afirma que a burguesia consegue ver claramente vários problemas da sociedade capitalista. Os grandes industriais conhecem muito bem, por exemplo, a lógica capitalista que sempre leva às suas crises cíclicas. Quando a solução de tais problemas aponta, no entanto, para além do capitalismo, a consciência burguesa se anuvia, se escurece, não podendo ver além dos horizontes do capital. Por isso não existe, para a burguesia, mundo pós-capitalismo.

Há vários filmes e séries que expressam inequivocamente esta atmosfera cultural do realismo capitalista. O dia depois de amanhã, The walking dead e The 100 são apenas alguns. Em vários destes produtos da indústria cultural, a ameaça contra a Terra vem de fora: extraterrestres ou condições climáticas trazem caos e destruição ao planeta, de modo que os verdadeiros donos do mundo, aqueles com poder de decisão sobre os rumos da economia global, nunca são representados ou responsabilizados. É como se isso fosse uma espécie de projeção da burguesia: ela é a principal ameaça de destruição do planeta, mas projeta esta característica como vindo não dela, mas de outro planeta ou das forças impessoais da natureza.

Hegel e a experiência sensível

O filósofo alemão G. W. F. Hegel também nos ajuda a compreender por que não é tão estranho que um pobre seja de direita. É realmente triste e lamentável quando indivíduos em situação precária de vida defendem os interesses sociais e econômicos dos ricos, mas isso não é nenhuma aberração. O problema reside na concepção ingênua de que se o indivíduo passar por uma determinada experiência de forma direta, imediata, ele é capaz de desenvolver uma determinada forma de consciência social que esteja de acordo com seu próprio ser social. Tal concepção é absolutamente falsa, e infelizmente se encontra presente e alastrada em grande parte da esquerda. 

Alguns setores da extrema-esquerda até mesmo acreditam que se o trabalhador estiver em uma situação muito ruim, ele vai estar mais próximo de desenvolver consciência de classe. É aquela famosa tese do “quanto pior, melhor”. É aquele setor da esquerda que pensa que não se deve efetuar nenhum tipo de reforma no capitalismo, que não se deve tentar melhorar a vida do trabalhador ainda na sociedade de classes, pois se a situação estiver muito ruim, ele vai estar mais próximo de se rebelar e fazer a revolução. Isso é falso e corresponde a uma determinada forma de consciência que Hegel discutiu no início da obra Fenomenologia do Espírito

Esta é uma forma de consciência tão básica, tão ingênua, que é uma das primeiras que Hegel vai discutir em seu principal livro. A chamada certeza sensível é um nível de consciência em que se pensa existir uma ligação direta entre o sujeito e objeto, e que o sujeito pode conhecer o objeto em toda a sua riqueza sem nenhuma mediação, sem pressupor qualquer teoria ou reflexão. Por “conhecimento imediato” queremos dizer um conhecimento não mediado, um conhecimento direto da coisa, mas Hegel mostra logo no início da Fenomenologia que não é bem assim.

Uma incompreensão muito comum sobre nosso ato de conhecer é considera-lo passivo, como se conhecer um objeto se resumisse a registrar na mente impressões advindas do mundo exterior. A visão de um objeto, no entanto, nunca é passiva como pode parecer. Há sempre uma ligação entre aquele que vê e aquilo que é visto, o que já havia sido observado pelo filósofo alemão Immanuel Kant. 

O filósofo de Königsberg demostrou que a construção dos objetos do conhecimento é ativa, não passiva. De maneira resumida, podemos dizer que vemos nos objetos aquilo que colocamos neles, e não somos meramente receptáculos de impressões. A realidade nos envia tantas impressões que, se fôssemos simplesmente registrar tudo que nos chega através dos sentidos, sem efetuar nenhuma transformação desta massa amorfa, deste tsunami de sensações, não conheceríamos absolutamente nada. Tudo seria uma grande bagunça sem sentido.

Hegel nos fornece um exemplo para ajudar a compreender por que a certeza sensível falha em seu objetivo de conhecer o objeto de forma imediata. Vamos responder à pergunta "o que é o Agora?", anotando a resposta em uma folha de papel. Uma verdade não perde sua validade por ser anotada. Suponhamos que seja noite no momento da resposta, e então escrevemos: "o Agora é noite". Deixemos a folha de papel dormir sobre a mesa e, quando for meio-dia, vamos ler novamente o que escrevemos. Aquilo que era verdade quando escrevemos não é mais verdade no momento em que estamos lendo. Se você disser "o Agora é noite", mas o relógio mostrar meio-dia, esta afirmação é falsa. O "Agora", que era noite quando escrevemos, foi mantido ao ser escrito, como um Existente (Seiendes), mas acabou se mostrando depois como um Não-existente (Nichtseiendes). O próprio Agora, contudo, se manteve como um tal que não é noite e que também não é dia. Este Agora é, portanto, não um imediato, mas um mediado, pois ele é como um permanente através da determinação, seja do dia ou da noite. Como vemos neste exemplo, o que permanece é apenas o "Agora" genérico, abstrato, e não sua indicação se é dia, noite, 15 horas, 18 horas, etc.

Neste primeiro capítulo da Fenomenologia, aprendemos que a consciência ingênua pensa poder apreender o objeto de maneira direta, imediata, e ela pensa que esse seu conhecimento é o mais rico. Este conhecimento, no entanto, se revela como o mais pobre, pois é o conhecimento mais abstrato, no sentido de que “abstrato” em Hegel significa aquilo que está isolado, não ligado à totalidade.

Tal reflexão hegeliana é muito esclarecedora no caso do pobre de direita. Se um indivíduo passa fome, por exemplo, esta experiência não lhe revela as causas de sua situação. Por isso é problemática a posição de que as “vivências” de um indivíduo lhe colocam em uma situação mais adequada para compreender as causas e as soluções de sua própria condição social. A fome em si não produz nenhum conhecimento da estrutura da sociedade na qual se passa fome. Se o indivíduo de fato possui algum conhecimento da estrutura da sociedade, isso foi adquirido em algum outro lugar e em outro momento, mas não pela experiência da fome em si.

Esta concepção pós-moderna de “vivência” é um tipo da certeza sensível que Hegel revela como extremamente ingênua e primitiva. Ela se faz presente não apenas naquela concepção de “quanto pior a situação do trabalhador, mais próximo ele vai estar de desenvolver consciência de classe”, mas também do estranhamento que às vezes sentimos diante de um pobre de direita.

Esta forma de consciência ingênua nos faz pensar que o pobre deveria ter um conhecimento da estrutura da sociedade simplesmente porque ele é pobre, passa fome, tem moradia e condições de vida precárias, mas isso é falso. Um conhecimento imediato e do particular não nos revela a totalidade. Quando o trabalhador pobre toma posições de direita, isso não é tão antinatural, pois as ideias dominantes de uma época sempre foram as ideias da classe dominante daquela época, e tal constante continua válida ainda hoje: a burguesia tem meios de difusão incomparavelmente mais poderosos do que nós, trabalhadores.

A ideologia da classe dominante está presente em qualquer filme, série, novela ou noticiário que assistimos. Não é de se admirar que um pobre seja de direita, e nem que ele adira a posições fascistas, algo que tanto a história quanto o presente nos ensinam. As estatísticas mostram que aqui, na Alemanha, os nazistas tiveram votos em todas as classes sociais, não apenas da classe média. Em todos os estratos  e camadas sociais havia simpatizantes que deram seu voto ao partido de Hitler, mostrando mais uma vez que não é nenhum mistério o fato de existirem pobres de direita.

Quando já conhecemos um mínimo sobre a estrutura do capitalismo, seu modo de funcionamento e a geração de pobreza intrínseca sem a qual este modo de produção não pode existir, tendemos a achar absurdo quando indivíduos defendem interesses de classe diametralmente opostos ao seu próprio ser social. Tendemos a considerar o pobre de direita como depravado, no sentido nietzscheano do termo. 

O uso do termo “depravado” aqui não é moral. É que nesta passagem de O anticristo, Friedrich Nietzsche afirma que um animal é depravado quando este age contrariamente aos seus próprios instintos, no sentido de que ele escolhe aquilo que lhe é prejudicial. O pobre de direita seria, nesta leitura, também um animal depravado, pois ele escolhe a ideologia dos seus algozes, dos seus opressores, agindo assim contra os seus próprios interesses.

Tudo conspira para que o pobre seja de direita. Se chegar um dia em que os trabalhadores, organizados politicamente, tenham meios de difusão mais poderosos do seu pensamento, pode ser que eles consigam virar o jogo e que sua visão de mundo se torne hegemônica. Enquanto a classe trabalhadora não tiver essas condições, no entanto, não há nada de especial no fato de vários deles aderirem à direita.

Aparência e essência

Se aparência e essência coincidissem, a ciência seria desnecessária. Esta observação de Karl Marx condensa uma extensa discussão filosófica sobre a relação entre aquilo que aparece à nossa consciência e a real natureza daquilo que é percebido. Se o mundo fosse como a consciência ingênua pensa que é, bastaria um contato direto e imediato com a realidade para que automaticamente a conhecêssemos tal como é, sem distorções, e em tal mundo haveria pouco espaço para enganos, ilusões e mentiras. O mundo da verdade imediata, contudo, seria também um mundo sem ciência.

Compreender a realidade social que nos circunda não é tarefa fácil. Sociedades humanas são complexas e produtos de longas histórias de desenvolvimento, de modo que não basta estar inserido em uma determinada comunidade para conhecer tudo o que se pode saber sobre sua estrutura e funcionamento. Isso talvez seja possível quando falamos de pequenos grupos locais, mas jamais de povos ou países inteiros.

Este tipo de discussão envolve também outros aspectos, dos quais poderíamos mencionar ainda o psicológico, por exemplo. Gustave Le Bon, em sua obra Psicologia de massas, também se perguntou por que os trabalhadores raramente elegem seus próprios representantes. O psicólogo francês observou que trabalhadores e camponeses raramente escolhem um saído de suas fileiras, e quando o fazem, é apenas para tentar se opor a seus empregadores e se sentirem de algum modo como seus superiores. Uma das razões é que o líder de massas geralmente possui um certo tipo de aura, ou prestígio, o qual é definido como um tipo de mágica que uma personalidade, uma obra ou uma ideia exercem sobre nós. Tal enfeitiçamento adormece nossas faculdades críticas e teria o poder de nos causar grande admiração, assemelhando-se a uma sugestão hipnótica. Este tipo de prestígio pode ser natural ou adquirido, sendo uma das principais fontes daquele poder e atração exercido pela personalidade de certos reis ou mulheres.  A falta de tal aura ou prestígio pessoal pode ser compensada, no entanto, por riqueza, o que explicaria, de uma perspectiva psicológica, por que tantos pobres votam em ricos.

De maneira geral podemos dizer há pobres de direita porque as ideias dominantes de uma época, as ideias mais influentes de toda e qualquer época, sempre são aquelas da classe dominante da época. Se vemos o pobre de direita como um problema, isso se deve a uma deficiência de nossa formação filosófica: pensamos que um conhecimento imediato da realidade – passar fome, morar mal ou ter condições precárias de vida – deveria se converter automaticamente em um conhecimento da estrutura social, do capitalismo e de suas contradições.

Hegel nos mostra que a coisa não é bem assim. Nos espantamos com o pobre de direita pois pensamos ser possível ter acesso direto à realidade, de forma imediata, o que não é absolutamente possível: todo conhecimento é mediado. É por isso que passar fome não resulta, automaticamente, em conhecimento da estrutura social que produz a fome, do mesmo modo que ser explorado em uma fábrica, por si só, também não produz a convicção de que o capitalismo deve ser superado.

Glauber Ataide

Referências

ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. Dialektik der Aufklärung. Philosophische Fragmente. Frankfurt: Fischer Verlag, 2019.

FISHER, Mark. Kapitalistischer Realismus ohne Alternative?. Hamburg: VSA Verlag, 2020.

LE BON, Gustave. Psychologie der Massen. Stuttgart: Alfred Kröner Verlag; 2021:

LENIN, Vladimir. Que fazer? In: V.I. Lenine. Obras Escolhidas. São Paulo: Alfa-Ômega, 1986.

LUKÁCS, Georg. História e consciência de classe. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2012.

MARX, Karl, ENGELS, Friedrich. Die deutsche Ideologie. In: Marx Engels Werke: Band 3. Berlin: Dietz Verlag, 1990.

NIETZSCHE, Friedrich. Der Antichrist. In: Gesammelte Werke. Köln: Anaconda Verlag, 2012.

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