Psicologia de massas e análise do eu, de Sigmund Freud – um resumo


Este breve texto é um resumo de Psicologia de massas e análise do eu, de Sigmund Freud. A obra foi finalizada em março de 1921, sendo publicada cerca de três ou quatro meses depois, no original em alemão. A primeira tradução em inglês apareceu logo em 1922, realizada por James Strachey, incorporando algumas poucas alterações orientadas pelo próprio Freud. O título da obra indica as duas direções em que a investigação se move: ela busca esclarecer, por um lado, a psicologia de massas, tendo em vista as mudanças que esta exerce no indivíduo, e investiga também, por outro, a estrutura da psique, dando continuidade a um tema já abordado em Além do princípio do prazer (1920) e retomado posteriormente em O ego e o id (1923). Nosso resumo foi realizado a partir do original em alemão.

I

Freud inicia dizendo que a diferença entre psicologia individual e social (ou de massas) perde cada vez mais sua importância à medida que analisamos o assunto. De forma geral, podemos dizer que a psicologia individual é, desde o início e ao mesmo tempo, uma psicologia social (em um sentido mais amplo do termo). Os relacionamentos que temos desde a tenra infância com irmãos e pais, por exemplo, já são sociais, de modo que não é possível separar a psicologia individual da psicologia social. A diferença entre os dois tipos de psicologia seria em relação ao número de pessoas pelas quais o indivíduo é influenciado: poucas (apenas o círculo mais próximo) ou muitas (as massas). A psicologia de massas trata do homem enquanto membro de uma tribo, de um povo, de uma instituição ou de um determinado grupo de pessoas que se organiza em uma massa, em um determinado período e com um determinado propósito. A tese inicial de Freud é que a pulsão (Trieb) que nos leva à vida em sociedade não é algo inato e indivisível, mas que tem suas origens nos círculos mais próximos do indivíduo, como na família, por exemplo.

Freud não foi o fundador da psicologia de massas. Outros já haviam se ocupado do tema antes dele, e especialmente Gustave Le Bon em sua obra Psicologia de massas, à qual Freud dedica o segundo capítulo de seu texto.

II

O indivíduo, quando está sob influências de um grupo, sente, pensa e age de forma bem diferente do que se estivesse sozinho, e uma psicologia de massas deve responder, portanto, a três perguntas: o que é uma “massa”, como ela é capaz de influenciar a vida anímica do indivíduo, e em que consiste as alterações psíquicas pelas quais passa o indivíduo. 

A massa, ou grupo, é uma entidade (Wesen) provisória formada por elementos heterogêneos que se uniram por um momento e deram origem a uma nova entidade, assim como as células no organismo também se unem para formar um outro ser com propriedades totalmente distintas das que elas próprias possuem. Esses elementos heterogêneos, todavia, se afundam em uma homogeneidade tão logo o grupo é formado, e resta explicar também de onde vem esta capacidade das massas de reduzir a autonomia dos indivíduos que lhe constituem.

Há ideias e sentimentos que surgem apenas em indivíduos participantes de um grupo. Como eles não tinham antes essas características, Le Bon busca compreender como elas surgiram, e identifica três momentos: 1) o primeiro é um sentimento de poder invencível que o indivíduo adquire ao ser participante do grupo, e este poder lhe permitiria satisfazer pulsões que, individualmente, não alcançariam gratificação. A sensação de anonimato proporcionada pela massa também faz desaparecer o sentimento de responsabilidade, que em situações normais inibe o indivíduo; 2) o segundo momento é o do contágio, da influência, o qual faz com que o indivíduo facilmente ceda seus interesses pessoais em nome da coletividade; 3) e o terceiro e mais importante momento é o da sugestibilidade, da qual o contágio mencionado anteriormente é apenas um efeito.

Este último ponto pode ser esclarecido com o que se sabe a respeito da hipnose. De maneira semelhante a alguém hipnotizado, assim também se comporta um indivíduo em uma situação de influência de um grupo psicológico. Sob a influência de uma sugestão, ele pode se colocar em ação para cumprir um determinado comando.

As principais características do indivíduo sob influência de um grupo são: desaparecimento da personalidade consciente, predominância da personalidade inconsciente, orientação dos pensamentos e sentimentos em uma mesma direção através da sugestão e do contágio e tendência a realizar as ideias sugeridas. O indivíduo não é ele mesmo, mas se torna um autômato sem vontade.

O indivíduo, que antes de se juntar à massa era talvez culto em seu isolamento, torna-se um bárbaro, uma entidade guiada a pulsões quando se junta ao grupo. A essência de um grupo pode ser comparada ao dos primitivos ou à das crianças: impulsiva, mutável e irritadiça. Os impulsos a que uma massa obedece podem ser cruéis ou nobres, covardes ou heroicos, mas nunca é capaz de considerar os interesses de autopreservação do indivíduo.

Mesmo quando uma massa deseja ardentemente algo, isso não é de longa duração, pois ela é incapaz de qualquer atividade de longo prazo. Ela é também altamente influenciável, crédula e acrítica. Ela pensa em imagens, e não conhece a dúvida ou a incerteza, e sempre é levada aos extremos, de modo que uma simples suspeita se transforma em condenação, e uma leve antipatia se converte em ódio selvagem.

Como as massas nunca têm dúvidas sobre o certo e o errado, o verdadeiro e o falso, isso leva facilmente à intolerância. Elas respeitam apenas a força e consideram a bondade uma espécie de fraqueza, e possuem a necessidade de serem comandadas, lideradas e oprimidas. São essencialmente conservadoras, gostam da tradição e geralmente repelem as novidades.

Freud considera esclarecedora a comparação realizada por Le Bon entre as características psicológicas do grupo e dos primitivos. Isso explicaria a razão de ser possível que, nas massas, ideias conflitantes possam coexistir, sem que estas contradições lógicas resultem em um conflito. O mesmo ocorre com as crianças e os indivíduos neuróticos.

As massas são também movidas por palavras de ordem, contra as quais nenhuma razão ou argumento são fortes o suficiente. Elas também não têm nenhuma sede pela verdade, são movidas por ilusões e não podem abrir mão delas. Esta predominância da fantasia e dos desejos não realizados sobre a realidade também é uma característica dos neuróticos, afirma Freud. E por fim, uma característica essencial das massas é que elas são um rebanho que precisa de um líder para seguir.

III

Os tipos de grupos a que Le Bon faz referência e descreve são aqueles de curta duração. As massas participantes da revolução francesa, por exemplo, estão entre as suas influências. É necessário também analisar, todavia, aqueles grupos estáveis, nos quais os indivíduos passam toda a sua vida e que formam o corpo social. No terceiro capítulo de sua obra, Freud leva em consideração também as discussões de McDougall em seu livro The group mind.

Uma questão importante que a análise desses grupos coloca diz respeito à sua unidade, àquilo que os mantém unidos. Para que um simples aglomerado de indivíduos se torne uma massa (ou grupo) no sentido psicológico, é necessário que seus elementos tenham algo em comum um com o outro, um interesse comum em um objeto, uma maneira parecida de sentir as situações e uma certa capacidade de se influenciar mutuamente. O fenômeno mais importante na formação de uma massa ou grupo seria, portanto, o aumento da afetividade, no sentido de uma intensificação das emoções. 

Esta característica é ainda favorecida pelo fato de que a massa dá ao indivíduo a impressão de um poder ilimitado, colocando-se no lugar de toda a sociedade. E como a sociedade é a portadora da autoridade, cuja punição deve ser temida, agora é perigoso voltar-se contra esta própria massa. A velha consciência deve ser abandonada em favor da nova autoridade, e junto a isso também ocorre uma suspensão das inibições. É por isso que indivíduos em grupos cometem ações que jamais cometeriam sozinhos.

As conclusões de McDougall sobre as massas não são mais amigáveis que aquelas de Le Bon: para este autor elas são impulsivas, inconsequentes, suscetíveis ao extremismo em suas ações e capazes de entender apenas os argumentos mais simples. Se comportam como uma criança mal criada ou um selvagem em uma situação de medo ou estresse. 

Segundo este autor, as massas ou grupos altamente organizados precisam de cinco condições principais para serem formadas: 1) uma certa situação de continuidade, que pode se dar através da permanência dos mesmos indivíduos por muito tempo, ou então dos mesmos cargos, mesmo que sejam ocupados sucessivamente por indivíduos distintos; 2) uma certa compreensão, por parte dos indivíduos, da natureza e das funções daquele grupo, de modo que se desenvolva nele um sentimento de relação com o todo; 3) que ela tenha uma massa ou gripo rival, parecida com ela em alguns aspectos, mas diferente em vários outros; 4) que a massa tenha uma tradição, usos e costumes que digam respeito à relação de um membro com o outro; e 5) que exista um tal arranjo no grupo que se expresse nas diferentes especialidades e capacidades de cada integrante.

Estas condições, características das massas organizadas, dão novamente ao indivíduo aquelas características que ele tinha perdido ao participar de massas ou grupos mais primitivos, ou “não organizados”.

IV

É ponto pacífico que o indivíduo altera seu comportamento quando faz parte de um grupo. Suas emoções aumentam, sua capacidade intelectual diminui e ambos os movimentos vão no sentido de uma acomodação, de um nivelamento aos outros indivíduos da massa. A questão, agora, é explicar como e por que isso acontece.

As propostas oferecidas por autores da sociologia sempre recorrem ao conceito mágico de sugestão, mesmo quando este aparece sob outro nome. Le Bon, por exemplo, frequentemente reduz tudo a dois únicos fatores: a sugestão recíproca e o prestígio do líder.

Ao invés da vaga ideia de sugestão, Freud apresenta o conceito psicanalítico de libido para tentar explicar de maneira mais apropriada a psicologia das massas. A libido é uma expressão da doutrina das emoções, ou da afetividade, e diz respeito àquela energia, quando considerada de forma quantitativa, mas não mensurável, daquela pulsão que está relacionada a tudo o que se pode resumir sob o nome de amor. Este amor, contudo, não é apenas aquele ao qual os poetas fazem referência, mas envolve também o amor próprio, o amor aos pais, o amor da amizade, o amor à humanidade ou até mesmo o amor a ideias abstratas. Platão deu a este amor o nome de Eros, e também o apóstolo Paulo faz referência a este tipo de amor ampliado.

A tese de Freud é que a essência das massas reside em uma ligação libidinosa. Tendo em vista que alguma força mantém os grupos unidos, ninguém melhor que Eros, que preserva tudo no mundo em unidade, para cumprir tal tarefa. Outra característica fundamental que a libido explicaria melhor que a simples sugestão é o fato de que o indivíduo, ao se integrar a um grupo, abre mão de boa parte de sua individualidade e se deixa sugerir pelos outros. Ele faz isso porque tem a necessidade mais de permanecer em concordância do que em oposição aos outros membros da massa.

V

A partir da morfologia das massas é possível perceber que elas podem ser de diferentes tipos. O que interessa para Freud, a partir do quinto capítulo de seu texto, é a distinção entre as massas que possuem e aquelas que não possuem um líder (Führer), e elege duas como modelo para o restante da obra: a igreja e o exército. 

A igreja e o exército são massas que precisam de uma certa dose de coerção para manter sua unidade. Tanto em um quanto no outro, existe a pretensão, ou a ilusão, de que há um superior que ama igualmente a todos do grupo: Cristo, na igreja, e o comandante (ou general), no exército. A ligação de cada membro com Cristo é o motivo da relação de cada cristão com outro, e da mesma forma acontece no exército: o comandante é o pai que ama igualmente a todos, o que estabelece o laço de camaradagem entre os subordinados.

Em ambos esses tipos de massas ou grupos artificiais, cada indivíduo tem uma ligação libidinosa dupla: em direção ao líder (Cristo, general) e em direção aos outros membros do grupo. Esta dupla relação é importante para explicar as transformações e a limitação da personalidade a que cada indivíduo se submete. 

Uma indicação de que a essência da massa reside nas ligações libidinosas é o fenômeno do pânico. No caso do exército, especificamente, o pânico surge quando a massa se dissolve, e sua principal característica é a de que ninguém mais ouve nenhum comando do superior e cada um age por si, sem consideração pelos outros. A ligação recíproca cessa e uma enorme quantidade de angústia (Angst) sem sentido é liberada.

No caso de uma organização religiosa, sua dissolução não é tão fácil de observar. O que lhe ameaça não é, como no caso do exército, o medo ou a angústia, mas impulsos de hostilidade que não podiam ganhar expressão contra aquelas pessoas que, até aquele momento, estavam igualmente sob o mesmo amor de Cristo. Fora desta relação, no entanto, se encontram todos aqueles que não pertencem à comunidade de crentes, que não amam a Cristo e nem são amados por ele, e daí a necessidade de a religião, mesmo quando chamada de “religião do amor”, se portar de forma severa contra os de fora. Em última instância, toda religião é uma religião do amor para aqueles que pertencem à comunidade, e uma religião da crueldade e da intolerância para os de fora. Se a intolerância religiosa hoje não é mais tão forte quanto foi em séculos passados, isso não se deve a uma moderação dos costumes, mas a um enfraquecimento dos sentimentos religiosos e das ligações libidinosas que deles dependem.  

VI

É preciso distinguir uma massa de um simples aglomerado de pessoas. Quando não há ligações libidinosas entre os membros, não se pode falar que há propriamente uma massa formada.

Schopenhauer apresenta uma interessante alegoria para ilustrar a ambivalência das ligações humanas. Em um dia frio de inverno, uma comunidade de porcos-espinhos resolveu se juntar para que um pudesse aquecer o outro. Não demorou muito, no entanto, até que cada um começasse a se incomodar com o espinho do outro, o que fez então com que se afastassem. Cada vez, portanto, que a necessidade de se aqueceram mutuamente surgia, vinha com ela também aquele outro inconveniente, de modo que foi necessário encontrar a distância adequada que lhes permitissem ficar juntos.

A psicanálise descobriu que cada sentimento íntimo e de longa duração entre duas pessoas tem também um fundo de sentimentos de hostilidades. Seja no casamento, na amizade ou na relação parental, é possível evitar tais sentimentos (em nível consciente) apenas em decorrência do recalcamento. O sentimento de ambivalência ocorre, portanto, quando uma certa hostilidade é direcionada a alguém que se ama ao mesmo tempo. 

Quando a antipatia e a rejeição, por outro lado, são abertamente sentidas e declaradas, especialmente contra estranhos em nossa proximidade, isso é como a expressão de amor-próprio, de um esforço pela autoafirmação, do narcisismo. É como se aquilo que o indivíduo vê e difere de si próprio fosse uma crítica à forma como ele é e uma exigência para que ele mude. Freud afirma não saber explicar por que uma diferença de particularidades desencadeia uma sensibilidade tão grande, mas que é indiscutível que neste comportamento dos seres humanos há uma tendência, uma disposição, uma prontidão ao ódio.

Esta intolerância, contudo, desaparece no seio de uma massa. Seja de maneira temporária ou permanente, os indivíduos se comportam em um grupo como se fossem iguais e toleram as características diferentes dos outros membros. Esta limitação ou redução do narcisismo pode surgir apenas através da ligação libidinosa a outras pessoas: o amor-próprio encontra uma limitação apenas no amor ao outro, no amor aos objetos. Desde a tenra infância, a libido se direciona à satisfação de nossas necessidades vitais e escolhe como objeto, por isso, aquelas pessoas que as satisfazem.

A limitação do narcisismo que encontramos no interior de um grupo, mas não fora dele, é mais uma indicação de que a essência de uma massa reside nas ligações libidinosas de uns membros com os outros. Resta esclarecer ainda que tipo de ligação libidinosa é esta, já que neste caso não seria possível afirmar, como nos casos de neurose, que se trata de pulsões buscando satisfação sexual direta.

VII

A identificação é uma das formas de expressão de um sentimento de ligação de uma pessoa a outra, e foi uma das primeiras de que a psicanálise tomou conhecimento. Ela aparece já na pré-história do complexo de Édipo, quando o menino quer ser como o pai e substituí-lo em todas as ocasiões. Dizendo de outra forma, ele toma o pai como seu ideal.

Ao mesmo tempo em que se identifica com o pai, ou talvez antes, ele já começa a ter a mãe como objeto. Ele possui então duas ligações psicológicas distintas: toma a mãe como objeto sexual e se identifica com o pai. Ambas permanecem lado a lado por um tempo, sem interferência ou perturbação mútua. O desenvolvimento normal da criança leva à unidade de sua vida anímica e à consequente colisão destas duas correntes, dando início então ao complexo de Édipo. Outra característica da identificação é que ela é ambivalente. Ela se manifesta tanto no sentido de uma afeição, quanto no sentido de um desejo de eliminar o pai, de tirá-lo do caminho (pois ele é o obstáculo para a posse da mãe).

As neuroses também nos permitem observar uma forma mais avançada de identificação. É o caso, por exemplo, quando uma garotinha desenvolve uma crise de tosses unicamente para ficar como a sua mãe. Neste caso, ela se identificou com a mãe, pelo menos em seu sofrimento. Uma tal situação poderia ser resumida com a seguinte fórmula: a identificação entrou no lugar da escolha do objeto, e a escolha do objeto regrediu a uma identificação. De especial interesse para nossa investigação é o fato de que o Eu toma para si características do objeto com o qual se identifica.

Outra forma de identificação pode ocorrer através de um tipo de infecção psíquica. Este seria o mecanismo de se identificar com o outro por estar em uma situação semelhante, como por exemplo morar em um mesmo internato ou estudar na mesma escola. Pode surgir, nestas situações, um desejo de se colocar no lugar do outro, ou então a capacidade de fazê-lo existe simplesmente por se compartilhar uma vida comum.

Podemos resumir as formas de identificação da seguinte maneira: 1) a identificação é a forma primária de ligação afetiva a um objeto; 2) ela se torna regressivamente uma substituição para uma ligação objetal libidinosa, à maneira de uma introjeção do objeto no eu; e 3) ela pode surgir também em relação a qualquer indivíduo que não seja objeto da pulsão sexual e com o qual exista alguma semelhança ou característica comum. Neste caso, quanto mais em comum com o indivíduo, mais efetiva é a identificação parcial.

A ligação entre os membros de um grupo é do terceiro tipo que mencionamos. Ela se dá através de uma característica comum afetiva entre eles, e podemos suspeitar que esta característica é a relação com o líder. Além disso, é preciso ainda investigar uma outra forma de identificação sem a qual não podemos avançar na compreensão da psicologia de massas.

Existe também uma identificação com um objeto que o indivíduo perdeu ou do qual abriu mão. Alguns casos de homossexualidade masculina são deste tipo: o menino se mantém com uma fixação intensa em sua mãe até muito tarde, e quando chega o momento, na puberdade, de substituí-la por outro objeto, ele se identifica com ela ao invés de abandoná-la. Ele se transforma em sua mãe e busca por objetos que possam substituir seu Eu, que o amem e cuidem dele assim como sua mãe fazia. Outro exemplo deste tipo de identificação com o objeto perdido é o caso de uma garotinha que, após perder gato, passou a dizer que ela própria era o gato. Ela começou a andar de quatro e não se alimentava mais à mesa como um humano.

A melancolia também oferece um exemplo de tal identificação através da introjeção do objeto. Uma das principais características destes casos é o cruel rebaixamento do Eu em conexão com uma inescrupulosa autocrítica e amargas autoacusações. Análises descobriram que estas opiniões e acusações se dirigem, no final das contas, não ao próprio indivíduo, mas ao objeto perdido. São uma espécie de vingança do Eu, sobre o qual as sombras do objeto recaíram. De especial interesse para a psicologia de massas é o fato de o Eu se dividir em duas partes e uma se enraivecer contra a outra. Uma dessas partes foi modificada pela introjeção do objeto e o contém, enquanto que a outra é a instância que inclui a consciência moral (Gewissen), uma instância crítica do Eu e que também nas circunstâncias normais exerce esta crítica, mas não da maneira injusta que o faz em períodos de melancolia.

A instância responsável por exercer a consciência moral é chamada de Ideal do Eu (Ichideal). Ela se separa do Eu e entra em conflito com este, sendo responsável pela autovigilância, pela censura nos sonhos e parcialmente também pelo recalcamento, sobre o qual tem grande influência. O Ideal do Eu é a herança do narcisismo originário, no qual o Eu infantil bastava a si mesmo. À medida que a criança cresce, o Ideal do Eu vai tomando para si as exigências do ambiente que o Eu não pode satisfazer, de modo que o Eu possa permanecer satisfeito consigo mesmo. A distância entre o Ideal do Eu para o próprio Eu varia de indivíduo para indivíduo.

VIII

O termo “amor” é utilizado às vezes para designar fenômenos ou circunstâncias que nos fazem questionar se a aplicação do termo realmente procede em alguns casos. Em uma série de outros, aquilo a que se dá o nome de apaixonamento (Verliebtheit) é apenas ocupação de um objeto por parte da pulsão sexual para satisfação direta. Este é o que se chama geralmente de “amor carnal”. Tal situação libidinosa, no entanto, raramente se manifesta assim tão simples.

No desenvolvimento da vida amorosa humana há ainda um segundo momento. No primeiro, finalizado quando a criança completa aproximadamente cinco anos de idade, a criança encontrou um objeto de amor em um dos pais, no qual todas as suas pulsões sexuais unificadas eram satisfeitas. O recalcamento que entra então em operação obriga a criança a abandonar a maioria desses objetivos sexuais infantis e deixa para trás uma profunda modificação do comportamento com os pais. A criança permanece ligada aos pais, mas com as pulsões inibidas. Os sentimentos que eles possuem pelos pais são agora de ternura, de carinho. No inconsciente, todavia, aquelas correntes de amor físico e carnal ainda permanecem.

Na puberdade aparecem novas e intensas correntes buscando gratificação sexual. Em algumas situações adversas elas buscam gratificação apenas física e se separam dos sentimentos “afetuosos”. São os conhecidos casos em que um homem, por exemplo, apresenta uma inclinação lírica por mulheres altamente cobiçadas, mas que, no entanto, não lhe atraem enquanto objeto sexual. Na maioria dos casos, todavia, o que acontece é uma síntese dessas correntes, de modo que sua relação com o objeto compreende tanto as correntes físicas e sensórias, como as não sensórias, celestiais.

Para o estudo da psicologia de massas, uma das características mais importantes nesta situação de apaixonamento é o fato de que o objeto amado dispõe de uma certa liberdade de crítica. Suas propriedades ou características são estimadas como tendo um valor muito maior do que aquelas de outras pessoas, ou mesmo em comparação com o próprio objeto quando ainda não era amado. O procedimento que realiza esta falsificação recebe o nome de idealização.

Nesta situação, o objeto é tratado como o próprio Eu. No apaixonamento, grande parte da libido narcísica escoa para o objeto, de modo que a escolha de objeto, em muitos casos, serve claramente ao propósito de substituir o Ideal do Eu. Ama-se por causa da perfeição, da completude que o próprio indivíduo gostaria de alcançar para si mesmo, e ele o alcança através deste meio indireto, satisfazendo assim seu próprio narcisismo.

Os casos de autossacrifício por um amor podem ser explicados por este mecanismo. Se o apaixonamento e a sobrevalorização sexual crescem, as correntes de satisfação sexual direta são cada vez mais inibidas, de modo que o Eu fica cada vez menos exigente, humilde, enquanto o objeto cresce e, por fim, toma para si todo o amor próprio do indivíduo. O objeto destruiu o Eu, e o autossacrifício é apenas a consequência natural desta situação. Ao mesmo tempo em que ocorre esta devoção do Eu ao objeto, que não se diferencia de uma devoção a uma ideia abstrata, o Ideal do Eu abandona também suas funções, de modo que toda crítica é silenciada e a consciência moral não tem mais poder algum sobre o que diz respeito ao objeto, o que pode tornar o indivíduo até um criminoso inveterado por amor. O que aconteceu nesta situação é que o objeto se colocou no lugar do Ideal do Eu.

Aqui é necessário esclarecer a diferença entre a identificação e o apaixonamento. No primeiro caso, o Eu se enriquece com as características do objeto que introjeta; no segundo, ele se empobrece, se entrega ao objeto e o coloca no lugar de partes importantes de sua constituição. Esta forma de assim expressar o problema pode levar, no entanto, a um mal compreendido. De um ponto de vista econômico, não se trata de enriquecimento ou empobrecimento, pois pode-se dizer que no apaixonamento extremo o objeto também é introjetado. No caso da identificação, o objeto é abandonado ou perdido; no caso do apaixonamento, ele é mantido, mas às custas do Eu.

O apaixonamento apresenta as principais características de uma hipnose. Ambas apresentam a mesma submissão humilhante e completa falta de crítica, de modo que a relação hipnótica é uma espécie de formação de um grupo, de uma massa. A hipnose isola da complicada textura da massa um único elemento, o comportamento do indivíduo em relação ao líder.

Os pontos discutidos até aqui nos permitem definir assim a constituição libidinosa das massas: uma massa é formada por um número de indivíduos que colocam um e o mesmo objeto no lugar de seu Ideal do Eu e, por causa disso, se identificaram uns com os outros em seu Eu. 

IX

Diversos autores atribuem à espécie humana uma tendência natural à formação de grupos. Este é o caso de W. Trotter em sua obra Instincts of the Herd in Peace and War, mencionada por Freud em sua discussão sobre um suposto instinto (Trieb) de rebanho que seria um dos fatores de formação das massas.

Trotter afirma que os humanos, assim como outros animais, possuem um instinto gregário. Eles buscam sempre se unir a uma unidade maior, e os indivíduos sentem-se incompletos quando estão sozinhos. Este instinto seria algo primário, não podendo ser dividido ou derivado de outros fatores.

Freud afirma que Trotter não considera de maneira suficiente o papel do líder na formação das massas. O instinto de rebanho não deixa nenhum espaço para o Führer, o qual é acrescentado à massa de maneira puramente acidental. Além disso, tal instinto não levaria à necessidade de Deus, pois faltaria o pastor do rebanho.

O medo que a criança se sente ao ser deixada sozinha seria um indício, segundo Trotter, da existência de tal instinto. Para Freud, no entanto, este medo se aplica à mãe (e mais tarde a qualquer outro cuidador) e é a única expressão possível que a criança consegue dar a um desejo ou aspiração não realizada. Não se pode reconhecer nas crianças nada semelhante a um instinto de rebanho ou a um sentimento de massas, o qual começa a se desenvolver apenas quando ela entra em contato com outras em um berçário ou no jardim de infância.

É apenas na escola que a criança desenvolve um sentimento de pertencimento a uma comunidade. Nesta época surge também a exigência por justiça, de tratamento igual para todos. Se a criança não consegue ser a preferida do professor, então que ninguém mais o seja, e surge desta situação uma identificação de umas com as outras.

Este é caso também da relação que os fãs de um artista estabelecem uns com os outros. Seria de se esperar que cada um sentisse ciúmes do outro, rivalizando pelo amor e pela atenção do astro. Diante da numerosa multidão e da impossibilidade de cada um se tornar seu preferido, eles se identificam um com o outro, celebram juntos seu ídolo e ficariam felizes se conseguissem pelo menos compartilhar entre si algum de seus objetos ou adereços. 

O sentimento social, ou a sociabilidade, tem sua origem na transformação (Umwendung) de um sentimento originalmente hostil, de competição, em uma ligação positiva propiciada pela identificação. É importante ressaltar, todavia, que esta identificação e a exigência de tratamento igual para todos se aplica apenas entre os membros do grupo uns com os outros, mas nunca com o seu líder. Todos querem ser tratados da mesma forma, assim como também querem ser comandados por apenas um. O homem não é um animal de rebanho, como afirma Trotter, mas um animal de horda, uma entidade individual de uma horda governada por um superior.

X

A forma originária da sociedade humana foi uma horda primitiva governada por um forte homúnculo de poder ilimitado. Esta é a tese avançada por Charles Darwin e que serviu de base para Freud elaborar suas reflexões em Totem e tabu. As massas ou grupos humanos ainda são uma imagem desta horda originária, na qual um todo-poderoso líder governa em meio a uma multidão de companheiros iguais entre si. A morfologia das massas esboçada até aqui e suas principais características (desaparecimento da individualidade consciente, a orientação de pensamentos e sentimentos de todos na mesma direção, a predominância dos afetos e do inconsciente, etc.) apontam para uma regressão na atividade anímica que corresponde à desta horda originária.

A massa é um ressurgimento da horda originária. Assim como cada indivíduo preserva em si algo do homem primitivo, também as massas revelam, em sua essência, algo da horda primitiva. Um primeiro ponto que encontramos em comum é o fato de que nas massas os indivíduos são ligados uns aos outros, mas o pai da horda primitiva é livre. Sua vontade não encontrava objeções, seu Eu era pouco libidinoso e ele não amava ninguém além de si. Ele era o Übermensch (super-homem, ou além do homem) que Nietzsche esperava apenas no futuro. 

O pai primitivo da horda ainda não era imortal, como veio se tornar posteriormente com a deificação. Ao morrer, precisava ser substituído por um outro, geralmente um filho, o que requeria a possibilidade de uma transição de uma psicologia de massas para uma psicologia individual. A tese de Freud é que isso era possível pelo fato de o pai ter impedido aos filhos a satisfação de suas necessidades sexuais diretas. Tal abstinência os compelia ao sentido de ligação com os outros membros do grupo, à psicologia de massas. Apenas àquele que seria seu sucessor foi dada a possibilidade de satisfação de suas necessidades sexuais diretas, abrindo com isso uma saída da psicologia de massas. A fixação da libido na mulher e a possibilidade de satisfação imediata pôs fim à inibição das correntes sexuais e permitiu um aumento do narcisismo.

A comparação entre a massa e a horda originária pode esclarecer também algo sobre a hipnose e a sugestão. O hipnotizador afirma possuir um poder misterioso que rouba ao sujeito sua vontade, e o sujeito acredita nisso. Este poder misterioso é o mesmo que os primitivos atribuíam como fonte do Tabu, e ele se manifesta, no caso da hipnose, através do olhar. É exatamente este olhar do chefe que os primitivos consideram insuportável, como mais tarde também será o olhar dos deuses para os mortais. Basta nos lembrarmos que Moisés, na Bíblia, não era capaz de olhar Deus nos olhos. 

Outra característica da hipnose, observada primeiramente por Ferenczi, é que o hipnotizador, ao ordenar que o sujeito durma, coloca-se no lugar de seus pais. Esta ordem de dormir significa apenas que o indivíduo deve retirar todo seu interesse do mundo para concentrar-se apenas na pessoa do hipnotizador.

Estas medidas despertam no sujeito hipnotizado uma herança arcaica, da qual os pais também participam. Elas fazem ressurgir a representação de uma personalidade perigosa e todo-poderosa, diante da qual a única resposta possível é uma atitude passivo-masoquista, na qual o indivíduo tinha que perder sua vontade. Apenas assim é possível compreender a relação do indivíduo da horda primitiva com o pai primitivo.

As origens da massa podem ser encontradas na horda primitiva. Seu líder continua sendo o temido pai primitivo, e a massa continua desejando ser dominada por um poder ilimitado. O pai primitivo é o Ideal da Massa que domina o Eu no lugar do Ideal do Eu.

XI

Cada indivíduo é membro de várias massas. Ele identifica seu Ideal do Eu de acordo com cada uma delas, para no final restar apenas uma pequena quantidade de originalidade e independência. Nas seções anteriores entendemos como o indivíduo abre mão de seu Ideal do Eu e o troca contra o Ideal da Massa incorporado na pessoa do Führer.

A clivagem entre Eu e Ideal do Eu não é a mesma em todos os indivíduos. Ela é muito pequena em alguns, de modo que o Eu ainda mantém uma boa dose de autocontentamento narcisista. Esta situação facilita a escolha do líder, pois basta que este possua as características típicas deste indivíduo de maneira mais pura e acentuada e passe a impressão de uma força maior e de uma liberdade mais libidinosa para que a necessidade dos indivíduos de possuir um líder forte recaia sobre ele e o revista de um superpoder que, de outra maneira, ele talvez nunca poderia corresponder. E os outros indivíduos, cujo Ideal do Eu só puderam se personificar neste líder após alguns ajustes e correções, estes são conduzidos de forma sugestiva, através de uma identificação.

A separação entre Eu e Ideal do Eu não é permanente. As exigências e restrições a que o Eu é submetido fazem com que a quebra periódica dessas limitações seja a regra, e um exemplo disso é a própria instituição do carnaval. Festas deste tipo, assim como as Saturnálias, em Roma, são licenças temporárias para excessos não permitidos em outros períodos, e seu caráter alegre vem justamente desta liberação. Se os indivíduos se mostram mais abertos e menos restritivos a práticas sexuais durante o carnaval do que no restante do ano, isso é índice de que em tais sociedades prevalece o recalcamento.

Glauber Ataide

Referência

FREUD, Sigmund. Massenpsychologie und Ich-Analyse. In: Sigmund Freud Studienausgabe: Fragen der Gesellschaft/Ursprünge der Religion. Vol IX. Frankfurt am Main: S. Fischer Verlag, 2009.


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