O demônio venceu em “O exorcista” – comentário sobre o livro de William Peter Blatty


Livros são sempre mais interessantes que suas adaptações em filmes, diz o clichê. Confirmei esta regra mais uma vez ao ler a obra O exorcista, de William Peter Blatty, e compará-lo com a película agora disponível também em versão Blu-ray.

A obra se desenvolve num ritmo gradual e cativante. De fato, fazia tempos que não terminava um livro tão rápido. Logo nas páginas iniciais já presenciamos as primeiras manifestações sobrenaturais, o que prende nossa atenção enquanto a trama é cuidadosamente elaborada.

Blatty se esforça para que a história pareça razoável. Quem acreditaria, afinal, em exorcismo em pleno século XX? Certamente não a ateia Chris McNeil, mãe da garota possuída, e nem mesmo o padre psiquiatra que participará do exorcismo, Demien Karras. Para fazer um exorcismo seria preciso, antes de tudo, pegar uma máquina do tempo e voltar para o século XVI, afirma o cético religioso.

Como a história se passa, todavia, no século XX, é a ciência quem deve explicar o que está acontecendo com a jovem Regan McNeil, de apenas 11 anos. A menina altera seu comportamento, passa a conversar com um amigo invisível e sofre ataques violentos que parecem convulsões. Sua mãe a encaminha a inúmeros médicos e psiquiatras, ela passa por incontáveis exames e chega até mesmo a ser internada por algumas semanas. Tudo isso para tentar solucionar seus problemas aparentemente psicológicos.

Chama a atenção não apenas o tempo empregado na narrativa com procedimentos médicos, mas também o nível de detalhes nos diálogos. De especial interesse, pelo menos para mim, foram as referências a textos de Sigmund Freud e Carl Gustav Jung, revelando o bom trabalho de pesquisa do autor para dar suporte à trama. Blatty afirma que o que mais choca o público ao ver o filme não são exatamente as cenas sobrenaturais, mas as médicas: a ciência maltrata a jovem Regan mais do que o próprio demônio.

Nem o autor do livro, Bill Blatty, nem o diretor do filme, William Friedkin, consideram O exorcista uma obra de terror. Eles caracterizam a trama como um “thriller teológico”, ou uma “história de detetive sobrenatural”. Há críticos que inclusive interpretam a obra como uma história de amor, já que o padre Damien Karras dá a sua vida por uma menina que ele nunca conheceu (pois quando ele conhece Regan, ela já está completamente tomada pelo demônio e sua personalidade desapareceu). Friedkin também afirma que a história levanta a clássica questão: por que coisas ruins acontecem a pessoas boas?

Seja classificado como for, minha tese é que, em O exorcista, o demônio é o grande vencedor do conflito. Pelo livro ficamos sabendo que o padre Merlin já havia duelado com este mesmo demônio que agora se encontra no corpo de Regan. Tão logo eles se reencontram na casa dos McNail, o demônio diz ao velho padre: “Desta vez você vai perder”.

Em um diálogo presente tanto no livro quanto no filme, ocorrido em uma breve pausa durante o exorcismo de Regan, Karras pergunta ao mais experiente Merlin por que o demônio havia escolhido a pobre garotinha. Merlin afirma que o objetivo do demônio é leva-los ao desespero, à perda da fé. 

Tendo em vista que Regan não era um objetivo em si, que Merlin já havia exorcizado este mesmo demônio uma vez e que por isso ele agora prometia revanche, parece que o grande duelo na obra é entre o padre Merlin e o demônio - e não entre este e a garota, ou entre o demônio e o mais jovem padre Karras.

O resultado é que o demônio Pazuzu conseguiu matar dois padres. Merlin é encontrado já sem vida por Karras, que pede ao demônio que lhe possua e, num ato heroico, se atira pela janela para evitar que o demônio utilize seu próprio corpo para atacar Regan.

A obra pode dar a impressão de que o “bem” venceu pelo fato de Regan ter sido exorcizada com sucesso. Isso só é verdade se considerarmos que a questão principal da obra é a libertação de Regan. Se tivermos em vista, contudo, que a garota era apenas um meio para uma nova batalha entre o demônio e o padre Merlin, o placar é favorável ao ser das trevas.

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