Minimalismo, consumo e infelicidade - lições da filosofia antiga e uma crítica marxista


O minimalismo pode ser compreendido como uma reação à sociedade de consumo. O movimento, fundado por Joshua Fields Millburn e Ryan Nicodemus, pretende mostrar que o caminho para a felicidade não está na compra desenfreada de mercadorias. Seu rápido crescimento e a adesão de milhões de pessoas já lhe rendeu inclusive dois documentários na Netflix.

Pelas redes sociais encontramos inúmeros canais e perfis de minimalistas relatando como o minimalismo lhes ajudou a superar não só a infelicidade cotidiana, mas até mesmo problemas mais graves como a depressão. Isso nos deixa com uma certeza: o capitalismo e sua promessa de felicidade através do consumo tem adoecido as pessoas.

Neste breve artigo queremos apontar algumas semelhanças - e também diferenças - entre o minimalismo e as escolas filosóficas gregas surgidas no helenismo, como o epicurismo e o estoicismo, e também como o marxismo pode nos ajudar a compreender o lugar, o papel e a função deste movimento na sociedade capitalista.

O que é o minimalismo

A constatação básica do minimalismo é bem simples: estamos cercados de coisas que não precisamos. Acumulamos objetos demais, e isso é reflexo do fato de que tentamos encobrir nossas frustrações e insatisfações através do consumo, o que acaba nos trazendo ainda mais infelicidade.

Se passarmos a abrir nossas gavetas, examinar e contar todos os objetos que possuímos, ficaremos impressionados com a quantidade de coisas inúteis que já compramos e guardamos. O objetivo do minimalismo é, entre outros, colocar fim ao acúmulo irracional de objetos, à compulsão por comprar e, assim, focar nas coisas da vida que realmente importam.

Uma definição que encontramos no site oficial do movimento diz o seguinte:

"O minimalismo é uma ferramenta que pode te ajudar a encontrar liberdade. Liberdade do medo. Liberdade das preocupações. Liberdade da sobrecarga. Liberdade da culpa. Liberdade da depressão. Liberdade das armadilhas da cultura do consumo envolta das quais construímos nossas vidas. Verdadeira liberdade."

Reparem o uso da expressão "cultura do consumo". Isso deixa claro que o assunto aqui é o modo de produção capitalista e sua exigência de produção e consumo infinitos. Esta constatação, no entanto, não é exatamente nova. Karl Marx afirma, logo na primeira frase de O capital, que "a riqueza das sociedades em que domina o modo-de-produção capitalista apresenta-se como uma imensa acumulação de mercadorias". Produzir muitas mercadorias é uma condição sina qua non do capitalismo, e para esta produção infinita é necessário, consequentemente, um escoamento infinito, sendo este fomentado por uma cultura do consumo.

Minimalismo e escolas filosóficas do helenismo

É impossível não comparar o movimento minimalista com as diversas escolas filosóficas surgidas na época do helenismo, mas com uma grande diferença: não podemos dizer que o minimalismo é uma “filosofia” no sentido mais estrito do termo. Ele se aproxima, antes, de uma sabedoria de vida.

O minimalismo não é uma "filosofia" pois lhe falta uma concepção unitária do mundo, uma fundamentação de fato filosófica. O epicurismo e o estoicismo, por exemplo, não se resumiam apenas ao seu componente ético, mas Epicuro e os estoicos tinham toda uma filosofia da natureza articulada ao seu pensamento moral.

Esta é, a propósito, uma das principais diferenças entre os estoicos antigos e o fenômeno contemporâneo da autoajuda. Encontramos hoje, nas livrarias, diversos livros de filósofos antigos como Epicuro, Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio, e às vezes podemos ter a impressão de que estes autores estavam fazendo autoajuda a dois mil anos atrás. Temos esta falsa impressão pois estamos acessando apenas parte de sua filosofia.

Um objetivo comum tanto do minimalismo quanto de algumas escolas filosóficas do helenismo pode ser encontrada neste trecho abaixo, extraído do site oficial do movimento:

"Ao incorporar o minimalismo em nossas vidas, fomos finalmente capazes de encontrar a felicidade duradoura (lasting happiness) - e isso é o que todos estamos procurando, não? Todos queremos ser felizes. Os minimalistas procuram a felicidade não através das coisas, mas através da própria vida; assim, é você quem determina o que é necessário e o que é supérfluo em sua vida."

Quando lemos, por exemplo, que o minimalismo possibilita alcançar uma “lasting happiness”, uma felicidade duradoura, isso nos remete imediatamente ao conceito de ataraxia utilizado pelos epicuristas e, principalmente, pelos estoicos. 

A ataraxia era a total imperturbabilidade da alma, a total ausência de dores ou perturbações. Os estoicos pensavam que podemos alcançar esta felicidade permanente através da apatia, da total insensibilidade diante de todas as coisas, do total desprendimento em relação às emoções.

Claro que os principais representantes do minimalismo, Joshua Fields Millburn e Ryan Nicodemus, sabem dessas questões. Às vezes encontramos até mesmo citações destes filósofos antigos em seus livros. Os princípios básicos do minimalismo não são novidades, embora eles evitem tais articulações e um diálogo direto com a filosofia grega.

O remédio que o minimalismo pretende trazer aos nossos males já existe desde o helenismo. Giovanni Reale, em sua obra O saber dos antigos – terapia para os tempos atuais, nos mostra como a filosofia antiga dialoga conosco hoje. Se os minimalistas falam sobre não termos mais do que precisamos, esta lição já temos em Sócrates. A chamada “oração do filósofo”, que Sócrates dirige aos deuses na obra Fedro, de Platão, nos orienta para uma vida mais completa, satisfatória, e com poucos bens materiais.

Eis o trecho:

Fedro - [...] Mas vamos embora, porque o calor já não está tão forte.

Sócrates - Não convém que façamos uma prece a esses deuses, antes de seguir o caminho?

Fedro - Por que não?

Sócrates - Querido Pã e outros deuses que estais neste lugar, concedei-me a beleza interior e fazei que meu exterior se harmonize com tudo o que carrego dentro de mim. Que eu possa considerar rico o sábio e possa ter uma quantidade de ouro que só o temperante conseguiria tomar para si ou levar consigo. Precisamos de outras coisas, Fedro? Creio que pedi o suficiente.

Fedro - Esta oração é também a minha, pois os amigos têm tudo em comum.

Sócrates - Vamos, então! (279B-C)

Reale afirma que os dois primeiros pedidos aos deuses referem-se ao que é interior e ao que é exterior e à correta relação entre ambos, e que os dois últimos centram-se, ao contrário, naquilo que constitui a verdadeira riqueza.

No primeiro pedido, encontramos o conceito de que a verdadeira beleza, a divina, não está no corpo mas na alma, e é esta que é realmente preciosa. O segundo pedido refere-se à concordância que o homem deve realizar entre o "interior" e o "exterior", entre o que é espiritual e o que está ligado ao corpo. Para Reale, a mensagem desse pedido ao homem de hoje é esta: "não procure aumentar o que você tem, mas faça com que o que você tem esteja em harmonia com o que você é."

No terceiro pedido é expressa uma ideia típica sobretudo dos filósofos gregos, a de que não é o ouro o verdadeiro bem, e que a sabedoria é muito mais valiosa que este, e essa sabedoria é justamente a Filosofia. E finalmente, no quarto pedido, "o filósofo sabe que não pode pedir ao deus todo o ouro da sabedoria, porque a posse total da sabedoria só convém ao deus. Mas pode pedir-lhe que tenha o mais possível."

A reflexão sobre nossa compulsão ao consumo, outro ponto central abordado pelo minimalismo, é um problema que podemos avaliar também através da reflexão de Epicuro sobre os tipos de desejos.

Epicuro afirma que há três tipos de desejos: 1) naturais e necessários; 2) naturais, mas não necessários; e 3) nem naturais, nem necessários

Os desejos naturais e necessários são, por exemplo, comer quando se está com fome, beber quando se está com sede ou descansar quando se está cansado

Já os desejos do segundo grupo são uma variação do primeiro. Seria, por exemplo, comer comida refinada quando se está com fome, ou beber da melhor bebida quando se está com sede. Comer quando se está com fome é natural, mas não é necessário que a comida seja refinada.

Os desejos do terceiro grupo são os piores, pois não são nem naturais, nem necessários. Estes surgem das “vãs opiniões dos homens”.

Percebam então que as obras de Epicuro já nos fornecem critérios que nos permitem avaliar nossa compulsão ao consumo como forma de encobrir nossas frustrações, insatisfações e infelicidade. O que o minimalismo apresenta não é uma reflexão original, e como afirma Reale, o saber dos antigos já nos oferecem diversas reflexões que podem nos ajudar a pensar nossos problemas contemporâneos.

Outra característica comum entre as escolas do helenismo e o minimalismo é a tendência a voltar a reflexão para o indivíduo isolado, e não para a estrutura social na qual eles se encontram. Isso se deve ao fato de que tanto o nosso período histórico quanto o do helenismo produzem nos indivíduos a percepção de que a realidade é impossível de mudar.

No período de Platão, por exemplo, ainda era possível pensar a política e formular uma utopia, como ele fez ao escrever sua obra A república, que descreve um estado ideal. Depois que Atenas foi dominada pelo rei Felipe, da Macedônia, e os gregos perderam sua liberdade, e a discussão política praticamente desapareceu, sobrevivendo apenas em uma literatura utópica periférica. É por isso que Epicuro afirma claramente que o sábio não participará da vida política, a não ser que sobrevenha motivo para tal, que ele deve viver ignorado.

Já os estoicos, embora tenham uma abertura maior para as questões políticas, quando falam, por exemplo, sobre a comunidade universal de todos os seres humanos, são ainda assim fortemente individualistas, e voltam suas reflexões muito mais o indivíduo do que para a estrutura social.

Crítica ao minimalismo

Como podemos compreender a função social do minimalismo? Queremos agora deixar o ponto de vista do individuo isolado para examinar o movimento a partir de uma perspectiva social. Mesmo que não seja a intenção dos fundadores ou dos participantes do movimento, o minimalismo cumpre uma função social, e nossa pergunta é: que função social é esta?

Podemos compreender o surgimento do minimalismo como oriundo de uma estrutura reificada de consciência, que considera o capitalismo como algo simplesmente dado, e que seus efeitos (do capitalismo) podem ser minimizados – ou até eliminados – através de uma saída puramente individual. É como se o indivíduo dissesse a si mesmo: "se eu mudar minha mentalidade e meu estilo de vida, o capitalismo não terá nenhum efeito sobre mim".

Vejam que, com isso, não estamos dizendo que o minimalismo não é um movimento legítimo. Se as pessoas estão sofrendo, elas precisam buscar algo que as alivie de seu sofrimento. A questão é que a busca por uma saída meramente individual significa resignação diante da estrutura social.

Jean-Paul Sartre afirma, em O existencialismo é um humanismo, que se eu escolho entrar em um sindicato católico ao invés de entrar no partido comunista, minha atitude diz respeito não somente a mim, mas ao conjunto da humanidade. Eu sou um legislador universal quando atuo no mundo, e com minha ação quero mostrar qual o caminho para a humanidade.

Não é incompatível que um indivíduo seja um minimalista – mesmo que ele não use este rótulo – e ao mesmo tempo lute por transformação social.  Não é contraditório ser minimalista e compreender que as causas do sofrimento residem na forma de organização social na qual vivemos, e que ela deve ser mudada.

Neste sentido, poderíamos até mesmo dizer que todo aquele que compreende que o consumismo é parte estrutural do capitalismo, adere de certa forma a alguns princípios do minimalismo. Todo aquele consciente do que significa capitalismo, observa e controla melhor seus impulsos de consumo.

Os princípios do minimalismo não são, portanto, incompatíveis com a luta por transformação social. Se tomado, no entanto, de forma isolada e alijado da perspectiva da totalidade, ele se configura em uma atitude de resignação diante das estruturas sociais.

Glauber Ataide


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