Psicologia do ateísmo - como a psicanálise explica também a descrença em Deus


Quando falamos sobre religião na psicanálise, a análise está voltada, na maioria das vezes, para investigar os mecanismos psíquicos responsáveis pela origem e pela sustentação da crença em um ser superior. Neste breve artigo queremos apontar que também o ateísmo, ou a descrença em Deus, pode ser explicado pelas mesmas categorias psicanalíticas.

Freud identificou que o desamparo infantil seria uma das experiências humanas básicas e universais que responde pela ilusão de que existe um ser superior que protege os homens das forças da natureza. Assim como a criança é protegida do mundo externo por seu pai, o indivíduo adulto é protegido dos males do mundo por um Deus onipotente.

Um exemplo de tal análise se encontra no artigo Uma experiência de conversão religiosa, no qual Freud investiga o caso de um homem que se converteu ao cristianismo quando já adulto.

Freud recebeu, em 1927, uma carta de um médico norte-americano que havia lido uma entrevista na qual o pai da psicanálise declarava sua indiferença quanto ao tema da vida após a morte e sua falta de fé religiosa. Nesta carta, o estadunidense descrevia sua experiência de conversão ao cristianismo na esperança de que esta pudesse levar Freud a uma reflexão sobre o assunto.

O episódio que teria levado o autor da carta a se converter é como se segue:

Certa tarde, ao atravessar a sala de dissecção, minha atenção foi atraída por uma velhinha de rosto suave que estava sendo conduzida para uma mesa de dissecção. Essa mulher de rosto suave me causou tal impressão que um pensamento atravessou minha mente: 'Não existe Deus; se existisse, não permitiria que essa pobre velhinha fosse levada a sala de dissecção.'

Quando voltei para casa naquela tarde, o sentimento que experimentara à visão na sala de dissecção, fizera-me decidir não mais continuar indo à igreja. As doutrinas do cristianismo, antes disso, já tinham sido objeto de dúvidas em meu espírito.

Enquanto meditava sobre o assunto, uma voz falou-me à alma que 'eu deveria considerar o passo que estava a ponto de dar'. Meu espírito replicou a essa voz interior: 'Se eu tivesse a certeza de que o cristianismo é verdade e que a Bíblia é a Palavra de Deus, então eu os aceitaria.'

No decorrer das semanas seguintes, Deus tornou claro à minha alma que a Bíblia era Sua Palavra, que os ensinamentos a respeito de Jesus Cristo eram verdadeiros e que Jesus era nossa única salvação. Após uma revelação tão clara, aceitei a Bíblia como sendo a Palavra de Deus, e Jesus Cristo, como meu Salvador pessoal. Desde então, Deus Se revelou a mim por meio de muitas provas infalíveis.

Ao final da carta, o médico americano implorava Freud para refletir sobre o tema, pois estava dirigindo orações a Deus para que este lhe concedesse fé para crer.

Essa experiência, sendo um tanto enigmática e "baseada em uma lógica particularmente ruim", exigia, para o pai da psicanálise, uma tentativa de interpretação baseada em motivos emocionais, haja vista que Deus permite a ocorrência de coisas muito piores do que a remoção de um cadáver de uma velhinha para a sala de dissecção. E um médico, é claro, sabe muito bem disso. Então por qual razão sua indignação contra Deus irrompeu justamente ao receber essa impressão na sala de dissecção? 

Freud interpretou essa experiência religiosa da seguinte maneira:

A visão de um cadáver de mulher, nu ou a ponto de ser despido, recordou ao jovem sua mãe. Despertou nele um anseio pela mãe que se originava de seu complexo de Édipo, e isso foi imediatamente completado por um sentimento de indignação contra o pai. Suas idéias de ‘pai’ e ‘Deus’ ainda não se tinham separado inteiramente, de modo que seu desejo de destruir o pai podia tornar-se consciente como dúvida a respeito da existência de Deus e procurar justificar-se aos olhos da razão como indignação com o mau trato dado a um objeto materno. Naturalmente, é típico do filho considerar como mau trato o que o pai faz à mãe nas relações sexuais. O novo impulso, deslocado para a esfera da religião, constituía apenas uma repetição da situação edipiana e, conseqüentemente, logo se defrontou com uma sorte semelhante, ou seja, sucumbiu a uma poderosa corrente oposta. Durante o conflito real, o nível do deslocamento não foi sustentado: não há menção de argumentos em justificação de Deus, não nos é dito quais foram os sinais infalíveis pelos quais Deus provou sua existência ao que duvidava. O conflito parece ter-se desdobrado sob a forma de uma psicose alucinatória: escutaram-se vozes interiores que enunciaram advertências contra a resistência a Deus. Mas o resultado da luta foi mais uma vez apresentado na esfera da religião, e era de um tipo predeterminado pelo destino do complexo de Édipo: submissão completa à vontade de Deus Pai. O jovem tornou-se crente e aceitou tudo o que desde a infância lhe havia sido ensinado sobre Deus e Jesus Cristo. Tivera uma experiência religiosa e experimentaria uma conversão.

É importante destacar nesta interpretação o fato de que o Complexo de Édipo foi responsável por levar o indivíduo a duvidar da existência de Deus. Não estando ainda completamente separadas suas idéias de “pai” e “Deus”, seu desejo de destruir o primeiro encontrava expressão consciente na dúvida a respeito da existência do segundo.

Isso é, em um mesmo artigo Freud deixa entrever que, assim como uma conversão religiosa pode ser determinada pelo complexo de Édipo, o questionamento quanto à existência de Deus também pode ser determinado por este.

Esta é a linha de pesquisa que seguiu o professor Paul C. Vitz em seu artigo The psychology of atheism. Paul afirma que Freud, ao postular um complexo de Édipo universal como a origem de nossas neuroses, desenvolveu uma lógica simples e direta para compreender a origem da realização do desejo de rejeitar Deus.

... o complexo de Édipo é inconsciente, estabelecido na infância e, acima de tudo, seu motivo dominante é o ódio ao pai e o desejo de que ele não exista, especialmente representado pelo desejo de substituir ou matar o pai. Freud regularmente descrevia Deus como um equivalente psicológico do pai, e então uma expressão natural da motivação edípica seriam poderosos e inconscientes desejos pela não-existência de Deus.

Portanto, conclui Vitz, o ateísmo seria uma ilusão causada pelo desejo edipiano de matar o pai e o substituir por si próprio. Agir como se Deus não existisse é, segundo Paul, um disfarce óbvio do desejo de matá-lo, da mesma forma que em um sonho a imagem de um pai indo embora ou desaparecendo pode representar tal desejo. O epíteto “Deus está morto”, quando tomado em sentido popular, seria apenas um disfarce da realização de um desejo edipiano.

Glauber Ataide

REFERÊNCIAS

FREUD, Sigmund. Uma experiência religiosa. In: O Futuro de uma Ilusão, O mal-estar na civilização e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1997.

VITZ, Paul C.. The psychology of atheism. New York: 1995.

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