O argumento cosmológico em Tomás de Aquino - a terceira via

Denomina-se argumento cosmológico um conjunto de provas que procuram demonstrar a existência de uma Razão Suficiente ou Causa Primeira para o surgimento do cosmos. Estes argumentos, de acordo com Moreland e Craig (2005), podem ser agrupados em relação a três categorias básicas: 1) o argumento cosmológico kalam da Causa Primeira do princípio do universo; 2) o argumento cosmológico tomista da sustentação do mundo pelo Fundamento do Ser e 3) o argumento cosmológico de Leibniz da Razão Suficiente para a existência de algo em vez de sua inexistência. Entre os filósofos que propuseram tal argumento encontram-se Platão, Aristóteles, Avicena, Al-Ghazali, Maimônides e Santo Anselmo, entre outros (MORELAND; CRAIG, 2005). 

Tomás de Aquino desenvolveu cinco argumentos para demonstrar a existência de Deus, chamados de “as cinco vias”. Cada um desses argumentos se relaciona a algum aspecto do mundo criado por Deus e que “aponta” para a existência de seu criador. Como representativa do conjunto dessas cinco vias elegeremos a terceira delas, a via da contingência, também conhecida como seu argumento cosmológico (MARCONDES, 2007), para ilustrar algumas das limitações que suas vias apresentam quando utilizadas fora do âmbito teológico.

Segundo Marcondes (2007, p.132), a terceira via “toma por base as noções aristotélicas de necessidade e contingência e visa explicar a necessidade da existência do universo (cosmo)”. Ela é apresentada por Tomás da seguinte maneira na Suma Teológica: 

“A terceira via é tomada do possível e do necessário. Ei-la. Encontramos, entre as coisas, as que podem ser e não ser, uma vez que algumas se encontram que nascem e perecem. Conseqüentemente, podem ser e não ser. Mas é impossível ser para sempre o que é de tal natureza, pois o que pode não ser não é em algum momento. Se tudo pode não ser, houve um momento em que nada havia. Ora, se isso é verdadeiro, ainda agora nada existiria; pois o que não é só passa a ser por intermédio de algo que já é. Por conseguinte, se não houve ente algum, foi impossível que algo começasse a ser; logo, hoje, nada existiria: o que é falso. Assim, nem todos os entes são possíveis, mas é preciso que algo seja necessário entre as coisas. Ora, tudo o que é necessário tem, ou não, a causa de sua necessidade em um outro. Aqui também não é possível continuar até o infinito na série das coisas necessárias que tem uma causa da própria necessidade, assim como as causas eficientes, como se provou. Portanto, é necessário afirmar a existência de algo necessário por si mesmo, que não encontra alhures a causa de sua necessidade, mas que é a causa da necessidade para os outros: o que todos chamam Deus.” 

Reale e Antiseri (2007) resumem esta via da seguinte forma: 

“...este argumento parte do princípio de que o que pode não ser, um tempo não existia. Se, portanto, todas as coisas podem não ser (são contingentes), em dado momento nada existia na realidade. Porém, se isso for verdade, também agora não existiria nada (porque o que não existe não começa a existir a não ser por causa daquilo que já existe), a menos que não exista alguma coisa de necessariamente existente. Concluindo: nem tudo pode ser contingente, mas é preciso que haja algo necessário, e é aquilo que costumeiramente se chama Deus.” 

Se um ser é criado, isso é porque algo que já existia antes dele o trouxe à existência. Nossa existência, como seres humanos, é causada por um outro ser, pois somos o efeito de uma cadeia de causalidades. Se voltarmos ao início dessa cadeia, só poderemos encontrar como causa original algo cuja existência seja necessária (MCGRATH, 2005). 

Tudo o que existe, todas as criaturas, já que nascem, crescem e morrem, são contingentes, ou seja, não possuem o ser em virtude de sua essência. Se quisermos então explicar a atual passagem do estado possível ao estado atual, é preciso admitir uma causa que não foi e não é de modo algum contingente ou possível, porque está sempre em ato (REALE; ANTISERI, 2007).

Esses conceitos de ser e essência são dois importantes conceitos de inspiração aristotélica utilizados por Aquino. A relação entre os dois conforme exposta na terceira via é explicada assim por Moreland e Craig (2005): 

“a essência de algo é a natureza individual que serve ara definir o que esse algo é. Se uma essência existe, deve haver também unido à essência um ato de ser. Esse ato de ser envolve a contínua doação de ser, ou então a coisa seria aniquilada. A essência está em potência para o ato de ser; portanto, sem a doação de ser a essência não existiria. Pelo mesmo motivo, nenhuma substância pode se tornar real por si própria, pois a fim de se tornar real, já deveria sê-lo. A potência pura não pode se tornar real, ela precisa de alguma causa externa.” 

Tomás de Aquino, no entanto, incorre em certa dificuldade, segundo Moreland e Craig, por ter “desconsiderado os argumentos kalam sobre a finitude do passado como demonstrativo”, levando-o a afirmar a existência de Deus “com base no mais difícil pressuposto da eternidade do mundo”. 

Os autores reconhecem que Aquino afirma a impossibilidade do regresso infinito de causas, já que se assim fosse todas as causas seriam meramente instrumentais e, portanto, nenhum ser seria produzido (da mesma forma que nenhum movimento seria produzido num relógio sem mola, mesmo que ele possuísse um número infinito de engrenagens), o que leva à conclusão de que deve existir uma Causa Primeira Não-Causada de ser.

Mas, apesar disso, a concepção de Santo Tomás era efetivamente a da inexistência absoluta de causas intermediárias de ser – qualquer substância finita é mantida em existência imediatamente pelo Fundamento do Ser. 

“Esse é um ser não composto de essência e existência, e portanto, não necessita de causa mantenedora. Não podemos dizer que a essência desse ser inclui a existência como uma de suas propriedades, porque a existência não é uma propriedade, mas um ato, a representação da essência. Portanto, devemos concluir que a essência desse ser é simplesmente existência. Em certo sentido, esse ser não possui essência, ao contrário, é um ato puro de ser, não coagido por qualquer essência.” 

Tomás de Aquino conclui, então, que esse ser necessário é Deus. 

Nos deparamos aqui com o que é chamado o problema do salto, ou o “gap problem”. Considerando que exista uma Causa Primeira, segue-se daí qualquer coisa de interesse religioso? Haveria um salto entre a afirmação de que há uma primeira causa e a de que existe um Deus? Pruss (2009, p. 25) afirma que essa seria uma leitura equivocada, já que as seções seguintes da Suma Teológica oferecem elaborados argumentos para demonstrar que a Causa Primeira é ato puro, imóvel, imaterial, etc., e que Tomás de Aquino estaria, portanto, apenas levando o teísta a reconhecer este ser como Deus. Isso, no entanto, não resolve a questão, mas apenas a desloca para outro ponto: como reconhecer que esses atributos divinos pertencem ao deus cristão, e não a algum outro?

Além disso, mesmo que o universo possa ter uma explicação para sua existência, ela pode não se fundamentar em uma base externa, mas na própria necessidade de sua natureza. David Hume sugeriu que o universo é um ser metafisicamente necessário ao perguntar: “Por que o universo material não pode ser necessariamente existente?” De fato, “como pode algo, que existe desde a eternidade, ter uma causa, já que a relação implica uma prioridade de tempo e de princípio de existência?” (HUME, apud MORELAND; CRAIG, 2005).

Seria a terceira via de Tomás de Aquino capaz de responder a esta objeção ateísta? Segundo Moreland e Craig (2005), se o argumento tomista for bem-sucedido ele 

“demonstrará que o universo é um ser contingente dependente de uma causa, um ser necessário, para continuar a existir. Com certeza, as coisas são naturalmente contingentes no que tange sua existência contínua, como dependente de uma miríade de fatores, incluindo-se massas de partículas e forças fundamentais, temperatura, pressão, nível de entropia, etc., mas a contingência natural não é suficiente para estabelecer a contingência metafísica das coisas, no sentido de manter sua adição contínua à essência, a fim de que não sejam aniquiladas espontaneamente. Se o argumento de Tomás nos conduz por fim a um ser absolutamente simples cuja essência é existir, então alguém poderia ser levado a negar que os seres são metafisicamente compostos de essência e existência, se tal ideia de um ser absolutamente simples provar ser ininteligível.” 

Percebe-se então que a terceira via de Tomás nos encaminha novamente para uma discussão de natureza teológica, que é a simplicidade divina, não dando conta, portanto, de responder à objeção fora do campo da teologia. 

Essa impossibilidade de definir o deus cristão como essa Causa Primeira deu origem no ano de 2005 a um grande fenômeno chamado o Monstro do Espaguete Voador. Um cidadão dos EUA, chamado Bobby Henderson, escreveu uma carta ao Conselho de Educação do Estado do Kansas para protestar contra o uso de livros-textos que promoviam a teoria do Design Inteligente em salas de aula. Ele escreveu: “Lembremo-nos de que há várias teorias do Design Inteligente. Eu e muitos outros ao redor do mundo acreditamos fortemente que o universo foi criado por um Monstro de Espaguete Voador. Foi Ele quem criou tudo que vemos e sentimos.”

Henderson anexou em sua carta um desenho artístico de como seria o Monstro, apesar dele ser invisível: 



Conforme observa o filósofo William Lane Craig, esta paródia da teoria do Design Inteligente – que acabou se tornando muito popular – não diz nada sobre a real necessidade de uma inferência de uma causa do universo, seja ela qual for. Antes, o ponto da paródia é exatamente indicar a dificuldade de se saber algo sobre a natureza desta causa do universo, que Tomás de Aquino, em sua terceira via, aponta como o deus cristão. 

CONCLUSÃO 

O argumento cosmológico é “uma família de argumentos que procura demonstrar a existência de uma Razão Suficiente ou Causa Primeira da existência do cosmos” (MORELAND; CRAIG, 2005). A terceira via de Tomás de Aquino é um argumento cosmológico que tenta estabelecer a sustentação do mundo pelo Fundamento do Ser. No Figura 1 - O Monstro do Espaguete Voador entanto, seu argumento encontra pelo menos duas dificuldades: a primeira é passar da contingência natural à contingência metafísica das coisas, para demonstrar que o universo não poderia ser ele próprio necessário devido à sua natureza. A segunda é demonstrar que esta causa primeira seja efetivamente o deus cristão, e não o deus de alguma outra religião, ou até mesmo o Monstro do Espaguete Voador.

BIBLIOGRAFIA 

AQUINO, TOMÁS DE. Suma Teológica. Vol. 1. São Paulo: Loyola, 2001. 

REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da Filosofia. Patrística e Escolástica. 3. ed. São Paulo: Paulus, 2007,

MORELAND, J.P.; CRAIG, William Lane. Filosofia e Cosmovisão Cristã. São Paulo: Edições Vida Nova, 2005.

MCGRATH, Alister E. Teologia Sistemática, Histórica e Filosófica. São Paulo: Shedd Publicações, 2005.

MARCONDES, Danilo. Iniciação à História da Filosofia. 11. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2007.

PRUSS, Alexander R. The Leibnizian cosmological argument. In: CRAIG, William Lane; Moreland, J.P. (Org). The Blackwell Companion to Natural Theology. United Kingdom: Blackwell Publishing Ltd, 2009.

CRAIG, William Lane. Reasonable Faith: God and the Flying Spaghetti Monster. Disponível em: http://www.reasonablefaith.org/site/News2?page=NewsArticle&id=5933. Acesso em 20 de out. 2011.

Glauber Ataide

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