Freud e os atos falhos: a psicopatologia da vida cotidiana




As parapraxias, ou atos falhos (Fehlleistungen), são manifestações de intenções perturbadoras do inconsciente em nossa atividade consciente. Ocorrem geralmente para evitar o desprazer, e são sempre sintomas de algum tipo de conflito psíquico, atuando como uma espécie de compromisso. De certo modo, podemos dizer que um ato falho é também um ato bem-sucedido, pois é quando um desejo inconsciente consegue alcançar seu objetivo de forma manifesta.

No original alemão, cada ato falho é um verbo que começa com o prefixo “ver”: Versprechen, Verschreiben, Verlesen, Verhören, Vergessen, Verlegen, Verlieren. Este prefixo costuma indicar um erro na execução da ação, e embora isso não seja evidente em outros idiomas, é muito claro na língua alemã. Todos estes fenômenos devem ser considerados como tendo algum significado psíquico apenas quando não há um distúrbio físico ou neurológico envolvido.

O estudo dos atos falhos parece ser algo de menor importância. Afinal de contas, por que razão uma determinada ciência iria se interessar por fenômenos tão corriqueiros de nosso cotidiano? A questão é que os atos falhos são uma das principais portas de entrada para o estudo da psicanálise e das neuroses. Assim como os sonhos, os atos falhos são acessíveis e observáveis a qualquer indivíduo, ao contrário de pacientes neuróticos em um consultório ou laboratório. Esta é uma das razões de Freud iniciar suas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise (volumes XV e XVI da Edição Standard das Obras Completas) justamente com este tema.

Os atos falhos são uma "falha evidente de um mecanismo psíquico" (TALLAFERRO, 1996, p. 101), e foram agrupados por Freud em sete tipos: orais, escritos, de falsa leitura e de falsa audição, esquecimento temporal, perdas e atos sintomáticos. Eles são distúrbios temporários de uma função, que em outro momento pode ser perfeita e corretamente desenvolvida (Ibid.).

Uma das principais ocorrências de ato falho é a troca de uma palavra por outra, ou Versprechen. Este termo em alemão pode significar também “prometer”, mas Freud deixa claro que ele o utiliza especificamente no sentido de dizer algo diferente daquilo que era a intenção consciente. Em suas Vorlesungen zur Einführung in die Psychoanalyse ele dá o exemplo de um homem que se aproxima de uma mulher na rua e pergunta: “Wenn Sie gestatten, mein Fräulein, möchte ich Sie gerne begleit-digen.“ ("Se você permitir, senhorita, gostaria de te insultar.") No alemão ele usa o verbo beleidigen, que significa insultar, que soa muito parecido com o verbo begleiten, que significa acompanhar.

Outro exemplo é o de um professor que, ao lecionar sobre os genitais femininos, afirmou: “Beim weiblichen Genitale hat man trotz vieler Versuchungen... Pardon... Versuche...” ("Quanto aos genitais femininos, apesar de mutias tentações... perdão... tentativas...") Ao invés de Versuche, que significa tentativas, ele utilizou Versuchungen, que é traduzida como tentações.

Em mais de uma ocasião Freud utiliza também o exemplo de um presidente que, ao abrir uma sessão, afirmou: “Meus senhores, estou constatando a ausência de ... membros e declaro com o isso a sessão por encerrada”. Seu objetivo era declarar a sessão iniciada, mas nesta troca de palavras ele disse o oposto de sua intenção consciente.

George W. Bush, ex-presidente dos EUA, cometeu recentemente um delicioso exemplo deste tipo de ato falho. Ao criticar o presidente russo Wladimir Putin pela invasão da Ucrânia, Bush afirmou: “... e a decisão de um homem de iniciar uma invasão completamente brutal e injustificada do Iraque... quero dizer, da Ucrânia... o Iraque também, de qualquer maneira...” Bush foi um dos principais responsáveis pela guerra no Iraque, e seu ato falho nos revelou que ele também sabe que a guerra dos EUA contra aquele país foi completamente brutal e injustificada.

Tais tipos de atos falhos estão também presentes na arte. Freud fornece alguns exemplos de poemas a fim de mostrar que há muito os poetas já fazem uso deste recurso para revelar de maneira indireta um sentido ou intenção por trás de nossas ações conscientes.

O que estes exemplos já deixam claro é que os atos falhos manifestam uma intenção, um sentido. O efeito causado por trocas de palavras pode ser considerado como um ato psíquico plenamente legítimo que busca alcançar seu alvo.

O esquecimento de intenções (Vergessen von Vorsätzen) é um tipo de ato falho. Ocorre, por exemplo, quando chegamos em um determinado lugar e perguntamos: “o que eu vim fazer aqui mesmo?”. Ou, então, quando saio de casa com uma carta na mão para despachá-la, mas passo direto pela caixa de correio. Freud comenta assim em Sobre a Psicopatologia da vida cotidiana:

“...não preciso, como indivíduo normal e livre de neuroses, carregá-la na mão por todo o caminho e ficar à cata de uma caixa de correio onde possa jogá-la; pelo contrário, costumo colocá-la no bolso, seguir meu caminho deixando os pensamentos vagarem livremente, e confiar em que uma das primeiras caixas do correio há de chamar minha atenção e fazer com que eu ponha a mão no bolso e retire a carta. A conduta normal frente a uma intenção concebida coincide por completo com o comportamento experimentalmente produzido das pessoas a quem se deu, em hipnose, uma ‘sugestão pós-hipnótica a longo prazo’, como se costuma chamá-la. Esse fenômeno é usualmente descrito da seguinte maneira: a intenção sugerida dormita na pessoa em questão até se aproximar o momento de efetivá-la. É aí que desperta e impele a pessoa para a ação.”

Neste exemplo, o ato de depositar a carta na caixa de correios poderia entrar em associação com algum conteúdo psíquico que quero manter recalcado. Um mecanismo atua, por essa razão, para que a ação não seja executada, e nesse caso, para que eu esqueça minha intenção inicial. Esta associação pode ser mais simples, direta e imediata, ou pode envolver uma complexa constelação de associações.

Neste mesmo sentido, se alguém afirma: “Não me peça para fazer isto, tenho certeza de que vou esquecer!”, a realização dessa profecia, segundo Freud, nada tem de místico, pois “quem assim fala, sente em si a intenção de não executar o pedido e apenas se recusa a confessá-lo a si mesmo”.

Podemos também acrescentar outros exemplos tais como o esquecimento de devolver livros ou pagar contas. Freud afirma que, nestes casos, o indivíduo pode até negar que sua intenção seja de fato ficar com o livro para si ou não querer mesmo pagar a conta, mas ele não está consciente disso e não consegue encontrar outra explicação para seu esquecimento.

Outro ato falho muito comum é a substituição de nomes, isto é, quando trocamos o nome de uma pessoa pelo de outra. Ou, então, quando simplesmente esquecemos o nome de alguém. A real motivação da troca de um nome por outro ou o seu esquecimento pode ser mais complexa e, por isso, deve ser analisada individualmente, não havendo uma explicação geral para toda e qualquer situação. O esquecimento pode ser causado, em algumas situações, pelo fato de um determinado nome entrar em associação com alguma lembrança desagradável, o que causa então o seu esquecimento. Tal mecanismo é de extrema importância, e Freud afirma que este é o motivo por trás não só do esquecimento de nomes, mas de muitos outros atos falhos.

O esquecimento de nomes ou palavras também é muito comum. O mais curioso nesta situação é que, quando outras pessoas nos sugerem substitutos para o que estamos tentando lembrar, somos capazes de descartar as opções falsas, embora não nos lembremos da palavra correta. De maneira dialética, sabemos e não sabemos ao mesmo tempo, de modo que tais situações deixam claro que há uma resistência trabalhando a fim de que aquele termo não se torne consciente e que a natureza da nossa mente, tomada em sua totalidade, é essencialmente contraditória.

Para ilustrar um ato falho de esquecimento de palavras, relato um incidente que me ocorreu na época da faculdade. Estava apresentando um trabalho em sala de aula, quando me esqueci completamente de uma palavra. Foi constrangedor, pois fiquei alguns segundos calado, em pé diante de toda a classe, a qual esperava alguma reação. Com a ajuda do texto que tinha em mãos consegui recuperar o termo conflituoso e dei prosseguimento: era a palavra “acusação”.

Encerrada a apresentação, tentei analisar este episódio e logo encontrei seu motivo: a palavra acusação estava associada a julgamento, a qual, por sua vez, me remetia ao receio de que a audiência estivesse condenando minha apresentação. E o contexto era propício, pois o tema do trabalho era o julgamento de Sócrates, e estávamos comentando a obra Apologia de Sócrates, de Platão.

A perda de objetos, ou sua recolocação em outro lugar (Verlieren und Verlegen), têm em comum o fato de que o indivíduo sempre quer perder algo, mas os motivos e as finalidades variam em cada caso. Um indivíduo perde algo, Freud afirma, quando ela de alguma maneira ou sentido já está danificada, quando se tem a intenção de substitui-la por outra melhor. Assim também acontece com outros atos falhos, tais como deixar algo cair, danificar ou quebrar coisas.

Há também o Vergreifen, que poderíamos traduzir como “confundir-se”, o qual utilizamos para satisfazer um desejo ao qual deveríamos renunciar. Freud dá o seguinte exemplo: um de seus colegas tinha que fazer, contra sua vontade, uma visita nas redondezas da cidade, mas ao fazer a baldeação acabou pegando o trem errado e voltando para sua cidade. Este tipo de ato falho contribui para satisfazer o desejo do indivíduo, de modo que seu ato falho foi, como afirmamos no início, um ato bem-sucedido, quando consideramos a questão do ponto de vista de seu inconsciente. 

Os atos falhos são manifestações do inconsciente em nossas ações conscientes. Configuram-se, por isso, como um dos principais meios de introdução à psicanálise, pois são mais simples de interpretar do que os sonhos e se manifestam em todos os indivíduos, não apenas em neuróticos. Não é por acaso que Freud escolheu este tema como o primeiro de suas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise. Os atos falhos são uma clara manifestação de nossa psicopatologia da vida cotidiana, uma demonstração bem acessível da natureza contraditória e conflituosa que torna cada um de nós mais ou menos neurótico.

Glauber Ataide

REFERÊNCIAS

FREUD, Sigmund. Sobre a psicopatologia da vida cotidiana. In: Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1997.

FREUD, Sigmund. Vorlesungen zur Einführung in die Psychoanalyse (1916-17 [1915-17]). In: Sigmund Freud Studienausgabe, Vol. I. Frankfurt am Main: S. Fischer Verlag, 2007.

KEEGAN, Paul. Introduction. In: FREUD, Sigmund. The psychopathology of everyday life. London: Penguin Classics, 2002.

TALLAFERRO, Alberto. Curso básico de Psicanálise [Tradução Álvares Cabral ]. 2.ed. São Paulo: Martins Fontes, 1996.


Ouça sobre os atos falhos em nosso podcast 

 

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  1. Muito bom, mas Lapso enfim é um esquecimento, porém com definições .. a conclusãoq ue cheguei.. muito boa postagem.

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  2. Parabéns. Muito bom artigo. Sou aluno de psicanálise e de vários artigos que encontrei, sem dúvida o teu foi o mais didático e completo. Gostaria de manter contato para subtrair dúvidas sobre algumas questões. Poderia me ajudar ? Meu email é: ro-mattos@ig.com.br

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  3. Muito esclarecedor seu artigo. Voltarei a seu blogue de vez em quando, pois será de grande valia para meu livro Noite em Paris que está sendo publicado em partes por meu blogue do mesmo nome.

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  4. Muito bom o artigo. Grato

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