Acrilic on canvas, da Legião Urbana - análise literária

O texto abaixo, extraído do livro "Depois do fim - vida, amor e morte nas canções da Legião Urbana", é uma análise literária da letra de "Acrilic on canvas", de Renato Russo, lançada no disco "Dois" (1986).

Suas autoras, Angélica Castilho e Erica Schlude, possuem o título de Doutoras e Mestres em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

A letra copiada abaixo mantem todas as pontuações originais de Renato Russo.





Acrilic on canvas

- É saudade então.

E mais uma vez
De você fiz o desenho mais perfeito que se fez:
Os traços copiei do que não aconteceu.
As cores que escolhi, entre as tintas que inventei,
Misturei com a promessa que nós dois nunca fizemos
De um dia sermos três.
Trabalhei você em luz e sombra.

Era sempre:
- Não foi por mal. Eu juro que nunca
Quis deixar você tão triste.
Sempre as mesmas desculpas
E desculpas nem sempre são sinceras -
Quase nunca são.

Preparei a minha tela
Com pedaços de lençóis
Que não chegamos a sujar.
A armação fiz com madeira
Da janela do seu quarto.
Do portão da sua casa
Fiz paleta e cavalete
E com as lágrimas que não brincaram com você
Destilei óleo de linhaça
E da sua cama arranquei pedaços
Que talhei em estiletes
De tamanhos diferentes
E fiz então
Pincéis com seus cabelos.
Fiz carvão do batom que roubei de você
E com ele marquei dois pontos de fuga
E rabisquei meu horizonte.

Era sempre:
- Não foi por mal. Eu juro que não foi por mal.
Eu não queria machucar você: prometo que isso nunca vai
Acontecer mais uma vez.
E era sempre, sempre o mesmo novamente -
A mesma traição.

Às vezes é difícil esquecer:
- Sinto muito, ela não mora mais aqui.

Mas então por que eu finjo que acredito no que invento?
Nada disso aconteceu assim - não foi desse jeito.
Ninguém sofreu: é só você que provoca essa saudade vazia
Tentando pintar essas flores com o nome
De "amor-perfeito" e "não-te-esqueças-de-mim".



O título "Acrilic on canvas" (2º álbum) remete a uma técnica de pintura 49: acrílico sobre tela. O vocabulário está ligado às artes plásticas, por isso, palavras como "traços", "sombra" são alternadas com reflexões do eu-lírico sobre o objeto amado. Em seguida, mais palavras relacionadas à pintura, como "carvão", "pontos de fuga" 50, "tela", "paleta", "cavalete" são novamente interrompidas pelos pensamentos do eu-lírico. A proposta da letra é bastante criativa. Traz a pintura para o mundo das palavras. São duas manifestações artísticas distintas que aqui se unem, formando uma declaração de amor das mais originais. O ouvinte/leitor é capaz de criar a imagem das situações vividas e idealizadas através das palavras: "De você fiz o desenho mais perfeito que se fez: / Os traços copiei do que não aconteceu. / As cores que escolhi, entre as tintas que inventei, ". É a descrição do processo de idealização do objeto amado.

A música começa com um verso isolado que reflete a solidão: "- É saudade então." A letra trata a temática de despedida (4ª etapa), consequentemente, aborda a decepção, revelando uma obsessão do eu em relação a planos: "Misturei com a promessa que nós dois nunca fizemos / De um dia sermos três." Ele está sempre projetando para o futuro, quer construir um relacionamento ideal e o filho seria a síntese e o produto do amor.

A antítese do verso "Trabalhei você em luz e sombra." mostra que o objeto de desejo é razão e sentimento, certeza e dúvida, salvação e perdição, conhecimento e desconhecimento. É a figura do eu dividido entre o que é aceito e o que é proibido até mesmo dentro dele, pois a letra toda evidencia uma luta entre o sentimento e a incompatibilidade deste com o relacionamento.

A terceira estrofe é uma quebra da idealização do outro, pois apresenta o comportamento do objeto amado e a desilusão: "Era sempre: / - Não foi por mal. Eu juro que nunca / Quis deixar você tão triste. / Sempre as mesmas desculpas / E desculpas nem sempre são sinceras - / Quase nunca são." É o discurso das dúvidas, porque se quer o outro, apesar de tudo, e se quer recuperar um estado de graça perdido.

Todo o universo do eu-lírico é construído através do outro, ele torna pessoais os objetos. A saudade faz com que o quadro precise de retoques, à medida que novas recordações vão dando mais vida ao desenho iniciado: "Preparei a minha tela / Com pedaços de lençóis / Que não chegamos a sujar. / A armação fiz com madeira / Da janela do seu quarto. / Do portão da sua casa / Fiz paleta e cavalete / E com as lágrimas que não brincaram com você / Destilei óleo de linhaça / E da sua cama arranquei pedaços / Que talhei em estiletes / De tamanhos diferentes / E fiz então / Pincéis com seus cabelos. / Fiz carvão do batom que roubei de você / e com ele marquei dois pontos de fuga / E rabisquei meu horizonte." A letra é realmente a pintura de um quadro que tem a função de representar o outro, lembrando até a pintura clássica e renascentista, pois estas mantêm um compromisso com a fidelidade da representação do objeto pintado, mas, é claro, sempre de acordo com a visão do pintor desse objeto.

Mas, na estrofe, "Era sempre: / - Não foi por mal. Eu juro que não foi por mal / Eu não queria machucar você: prometo que isso nunca vai / Acontecer mais uma vez. / E era sempre, sempre o mesmo novamente - / A mesma traição. // Às vezes é difícil esquecer: / - Sinto muito, ela não mora mais aqui.", percebe-se que há novamente uma quebra da idealização do objeto amado. O outro, que ele imaginava, torna-se, na verdade, a pintura: "Mas então por que eu finjo que acredito no que invento? / Nada disso aconteceu assim - não foi desse jeito. / Ninguém sofreu: é só você que provoca essa saudade vazia / Tentando pintar essas flores com o nome / De 'amor-perfeito' e 'não-te-esqueças-de-mim'." A conclusão do fracasso amoroso resulta não mais no retrato do objeto amado, mas somente em flores, símbolo do relacionamento. A pintura em si já é simbólica, porque ela é uma representação, seja de uma imagem real, seja de uma imagem que busque expor idéias, expectativas, delírios. Na letra, o objeto amado é representado pela flor, que é símbolo de efemeridade, de harmonia, de juventude, logo, é a representação desse amor que não durou, sintetizando a história vivida em "amor-perfeito" (antes) e em "não-te-esqueças-de-mim" (depois). Mesmo havendo a decepção, o eu não consegue atribuir à imagem do outro aspectos negativos.

Vale lembrar que, na letra, não há a voz do outro, apenas o eu-lírico fala desse amor. O outro é representado, não tem voz, apesar dos diálogos representados por travessão. E o fato de apenas um dos amantes fazer o relato torna o discurso interessante, pois não se trata da busca pela verdade, mas sim da análise das argumentações utilizadas por quem sofre uma desilusão amorosa.

Notas

49 A poesia e a pintura transitam pela natureza do poético. Entendemos poético aqui como tudo aquilo que trabalha com a sensibilidade. Diferente de um texto jornalístico, por exemplo, o poema deve situar-se no entredito. Ele nunca diz tudo e permite várias leituras. Outro ponto de contato entre poesia e pintura é que ambas lidam com o espaço.

50 Ponto de fuga é um elemento do desenho de perspectiva, uma forma de marcar e calcular corretamente perspectivas e distância em desenhos de paisagens, ou mesmo para desenhos de sólidos geométricos, objetos e figuras humanas. Imagine uma entrada em campo aberto. Se você olhar para a estrada até onde a vista alcança, verá que os lados parecem se encontrar no horizonte. Em um desenho, o ponto onde os lados da estrada se encontram na linha do horizonte corresponde ao ponto de fuga relativo a essa estrada. O mesmo serviria, por exemplo, para postes que acompanhassem essa estrada e que diminuiriam de tamanho até chegarem ao ponto de fuga, na linha do horizonte.

(CASTILHO, Angélica, SCHLUDE, Erica. Depois do fim. Vida, amor e morte nas canções da Legião Urbana. Rio de Janeiro: Hama, 2002.)
(p. 159-162)

12/Deixe seu comentário/Comentários

  1. Adorei essa interpretação.

    ResponderExcluir
  2. Excelente música e otima análise.Vivo c as tintas aq e nunca vi uma letra igual.

    ResponderExcluir
  3. Suas análises são perfeitas mas é tudo muito longo ...

    ResponderExcluir
  4. Anos ouvindo esta música, decifrando e viajando em ideias sobre a representação para tal entendimento, perfeito, além do meu pensar igualar-se com algumas frases expostas, a amplitude do entendimento explícito me fez ir mais alem. Parabéns!

    ResponderExcluir
  5. Demais! Está perfeito! De fato Renato Russo era um grandioso poeta e músico também. A análise está ótima, parabéns para as autoras.
    Acho que mais músicas da Legião merecem análises completas como esta.
    #urbana legio omnia vincit

    ResponderExcluir
  6. Excelente análise. Parabéns.

    ResponderExcluir
  7. Ótima análise eu viajei aqui

    ResponderExcluir
  8. Eu entendo essa musica como uma ideologia, um sonho, uma ilusao do que poderia ter acontecido e o sofrimento do que realmente aconteceu.Uma pintura que não existiu. Um nada baseado em um nada do que aconteceu. Ou seja: a pintura nao existe. Simplesmente imagens e interpretacões coerentes de quem viveu um amor impossivel e talvez não correspondido nas expectativas.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Exatamente isso. Essa música fala de um amor platonico. Toda a coisa se passa na cabeça do Renato. Por isso "saudade vazia" e "nada disso aconteceu assim" a analise literária da angelica esta completamente equivocada ao imaginar que o texto trata de despedida. Até a despedida é imaginária. Quando ele cria coragem pra trazer a relação pro mundo real ouve um " sinto muito ela não mora mais aqui" e aí vem o choque de realidade que se segue. Ressaltado pela quebra de bateria.

      Excluir
  9. Na realidade é uma letra forte. A irmã dele era quem fazia pintura... a ideia partiu daí... cada um tem a interpretação que quer e eu não gostei dessa de vcs... perdão... minha ineterpretação é outra... é uma viagem como se ela tivesse uma mulher que perdeu... um relacionamento... ´so isso

    ResponderExcluir
  10. Lilo, a interpretacao colocada pelas autoras do livro diz justamente isso que vc falou, o tempo todo. A letra fala de um relacionamento.

    ResponderExcluir
  11. Amei! sempre quis entender melhor esta música. E o Renato sofreu várias desilusões amorosas. Mas a pior foi o fato dele ser apaixonado pela prima que nunca quis nada com ele. E num belo dia ele viajou com a prima e um "amigo", e ela ficou com este "amigo." Isso foi praticamente a morte pro Renato, E tem outra música que fala desse amor platônico por sua prima. Essa é bem óbvia. A música se chama "Mariane" e foi composta em inglês. O nome da prima do Renato é Mariana.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagem Anterior Próxima Postagem