A realidade psicótica de Hellraiser - um comentário psicanalítico



A série de filmes Hellraiser, baseada na obra The hellbound heart, de Clive Barker, possui algumas características que lhe conferem, a meu ver, um status especial entre as obras de terror. Apesar de obras clássicas como O exorcista e Sexta-feira 13 constarem no topo da minha lista de favoritos, há algo peculiar na série protagonizada por Pinhead.

A história gira em torno de uma caixa, chamada às vezes de "caixa das lamentações". Quando aberta, ela liberta seres chamados "cenobitas", definidos por seu líder, Pinhead, como "exploradores das regiões profundas da experiência. Anjos para alguns, demônios para outros". Os cenobitas são criaturas horrendas que dominam com excelência as artes da crueldade e da tortura.

Esta caixa é buscada por aqueles que desejam ultrapassar os limites da experiência sensória na busca do prazer. A promessa é de que ela forneça, a todos aqueles a quem nenhum prazer mais satisfaz nesta terra, um outro prazer tal que os sentidos jamais poderiam alcançar. Uma cena que ilustra isso no livro é quando Frank Cotton, ao abri-la, percebe que seus sentidos, tais como audição e visão, são levados a um máximo de definição, embora isso também lhe traga uma dor intensa que ele não esperava encontrar.

O que é importante saber sobre a caixa é que ela é um portal para a realidade dos cenobitas. Não é sua simples manipulação, no entanto, o que os traz a essa realidade, mas sim a questão do desejo. Isso foi deixado explícito no segundo filme da série, quando um psiquiatra, chamado Dr. Channard, se utiliza de uma criança problemática internada em seu hospital, cuja obsessão era resolver jogos de enigmas, para abri-la. Ele lhe dá a caixa e fica a observar, de forma covarde e através de um vidro em outro cômodo, o que acontecerá quando a caixa for aberta. Quando os cenobitas aparecem, Pinhead impede que seus companheiros destruam a menina, dizendo-lhes: "Não são mãos o que nos reúne, mas desejo." Eles deixam então a criança de lado para buscar o Dr. Channard.

É a abertura da caixa o que confere a Hellraiser o efeito psicótico da série. Segundo Stefan Gullatz, no artigo Exquisite Ex-timacy: Jacques Lacan vis-à-vis Contemporary Horror, isso acontece quando os cenobitas invadem a realidade comum, de forma que as fronteiras entre as duas dimensões se tornam indefinidas. Enquanto a aparência dos cenobitas é em si mesma aterrorizante, o ponto crucial é a insuportável incerteza por parte do leitor ou espectador quanto à "localização" da ação. O movimento fluído e imprevisível entre as dimensões claramente subjaz ao extraordinário poder e tensão dramática do filme. Mais ao final, parece que a realidade dos cenobitas permeia todas as coisas, que a realidade comum foi "engolida" por eles. E seria essa quebra de fronteiras, essa dissolução do limite da realidade, segundo Gullatz, a responsável pelo "efeito psicótico" da série.

Além disso, muitos outros aspectos presentes na série podem ser objetos de investigações psicanalíticas. Uma interessante observação sobre os cenobitas é que a palavra "cenobita" designa um indivíduo que é parte de uma ordem religiosa, um monge que leva uma vida retirada. De fato, no livro que deu origem à série, os cenobitas são chamados até mesmo de "teólogos", e sons de sinos sempre precedem suas aparições.


Outro fator característico da série e que pode ser objeto de uma análise psicanalítica são os seus componentes sadomasoquistas. Os cenobitas parecem não saber a diferença entre prazer e dor. Eles são masoquistas porque encontram prazer através da própria dor, e sádicos porque também encontram prazer na dor que infligem a quem abre a caixa. A própria caracterização desses personagens deixa isso claro: Pinhead, o líder, tem a cabeça perfurada por pregos até o crânio, e sua roupa se mistura à sua carne. O cenobita gordo (Butterball), presente nos primeiros filmes, tem a boca costurada e o estômago aberto, como que tendo acesso à própria comida com as mãos, deixando subtender que seu principal prazer é a glutonaria, a qual é, no entanto, impedida pela costura em seus lábios.

Podemos também citar como exclusivo dessa série o fato de que Pinhead e os cenobitas não são "serial killers" como Jason, por exemplo. Pinhead é alguém com quem se pode conversar, e até mesmo barganhar. No primeiro filme, Kirsty, a jovem que abre a caixa, consegue se livrar dos cenobitas ao conversar com eles e oferecer seu próprio tio, Frank Cotton, em seu lugar. E ela faz isso novamente no sexto filme da série, Hellraiser - Caçador do Inferno ("Hellseeker", no original), quando promete a Pinhead cinco almas em seu lugar.

Pinhead também é célebre por suas frases de grande força poética e profundidade quase que filosófica. Podemos evocar, para citar alguns exemplos, a cena do primeiro filme em que Kirsty, em desespero na presença dos cenobitas, chora de medo e pavor, quando Pinhead lhe diz: 

No tears, please. It's a waste of good suffering. (Sem lágrimas, por favor. É um desperdício de bom sofrimento.)

No final desse mesmo filme, quando Kirsty tenta fugir dos cenobitas em meio ao incêndio de sua própria casa, Pinhead diz: 

We have such sights to show you! (Nós temos tantas visões pra lhe mostrar!)

E no quinto filme da série, Pinhead discursa sobre a humanidade: 

Ah, the eternal refrain of humanity. Pleading ignorance, begging for mercy. 'Please, help me. I don't understand.' (Ah, a sina eterna da humanidade. Alegando ignorância, suplicando misericória. 'Por favor, me ajude. Eu não compreendo.')

São, enfim, inúmeros elementos que fazem de Hellraiser uma série especial entre os filmes de terror. Sua principal característica psicológica é o "efeito psicótico" causado pela indefinição entre as fronteiras do mundo real e a dimensão dos cenobitas. Além disso, os componentes sadomasoquistas, a origem religiosa do termo "cenobita", a questão do desejo e a busca por um prazer que extrapole os limites de toda experiência sensível são temas propícios para futuras análises psicanalíticas.


REFERÊNCIAS:

GULLATZ, Stefan. Exquisite Ex-timacy: Jacques Lacan vis-à-vis Contemporary Horror. Disponível em <http://epe.lac-bac.gc.ca/100/201/300/offscreen/2005/complete_site_mar_16_2005/www.horschamp.qc.ca/new_offscreen/lacan.html>. Acesso em 17 mar. 2008.

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  1. Muito interessante o texto, parabéns!

    Confesso que vim a assistir os filmes da série Hellraiser por "influência" sua.

    Vi as fotos no seu album do orkut e pensei "se o Glauber gosta, então deve ser bom".

    São bons mesmo.

    Pinhead, seu olhar frio e sua voz são assustadores e suas "frases filosóficas" são demais mesmo. Dentre as que você citou faltou uma que é uma das minhas favoritas: "There's no good, there's no evil. There's only flesh...".

    Abraço!

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  2. Só uma correção.Kirsty entrega seu marido no sexto filme da série Hellraiser VI - Hellseeker.

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Olá, Sara,

    Obrigado por sua observação. Já procedi à correção.

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  4. Eu sou fascinado por esses filmes, o segundo filme "Hellraiser Hellbound" é meu favorito, assisti 17 vezes ele, é excepcional...adorei seu texto, a abordagem direta e esclarecedora, muito bem redigido, meus párabéns!

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  5. sara erro seu!
    Alem de seu marido ela também entrega as suas amantes o seu parceiro totalizando 5 almas.
    Alguém entendeu o pq no filme 2 quando os cenobitas são destruídos pq eles voltam a ser crianças? sendo que no filme 3 a alma de pinhead ainda como humano disse que foi preciso muito estudo pois a 6 maneiras diferentes de abrir a caixa.
    1. portal para ceanobitas (caçadores de inferno)trato pre feito por abrir a caixa a recepção do maximo de dor e prazer.
    2. transmutação para o leviatã (lar dos cenobitas)bem observado no filme 2.
    3. Libertação dos ceanobitas em mundo carnal(se tem ideia no filma 3).
    4. Vivencia do seu inferno (bem destacado no filme 5 e 6)
    5. a tranformação da caixa em lognus capaz de matar qualquer ceanobita( vista no filme 2)
    6. (a minha prediteleta) transformação em ceanobita, a que você se torna uma ceanobita usada por pinhead quando humano.

    Perceberam bem a diferença emtre o numero 1 e o numero 3

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  6. Texto muito bem elaborado apontando de maneira clara as partes subjetivas do filme. Parabéns!

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  7. Ótimo texto :)

    Um pensamento que me ocorre a respeito de Hellraiser é que... além do prazer diretamente vinculado à dor (masoquismo), há outro prazer um pouco mais indiretamente ligado à dor que é o decorrente do alívio da mesma.

    Se levarmos essa tese para o mundo de Hellraiser, os prazeres mais intensos seriam então decorrentes do alívio após as dores mais intensas. Alguém viciado neste prazer teria então que também passar pela dor para experimentá-lo novamente.

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  8. Os filmes são clássicos. São obras especiais de horror.
    Aos que gostaram do filme eu recomendo lerem os gibis também.
    Nos gibis as histórias são muito bem elaboradas e não se limitam a caixa de Pandora(caixa de Lamentos) para o encontro com os Cenobitas mas tambem a atitudes extremas, ligadas geralmente ao egoismo e falta de compaixão ao próximo.

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  9. Os filmes 1 2 sāo clássicos, 5 , 6 e 7 interessantes e os demais Pinhead pode levar pois sāo muito fracos e chatos ... A franquia se perdeu totalmente . Hellraiser tem uma história particular e diferente de tudo que já fizeram . Espero que nāo haja Remakes !

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  10. Sem dúvida a maior obra de arte de horror . Uma realidade por nós vivida e escondida pois o mundo físico e Espiritual é exatamente parte disso . Pena que o 3 4 7 e demais sejam tão ruins ... O 1 e o 2 são clássicos , 5 e 6 interessantes ...

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