Astrologia, cristianismo e a estrela de Belém


Aqueles que pensam que a bíblia deve ser estudada por si só, sem nenhum material de apoio que a contextualize e a revele com um produto cultural, encontram-se extremamente limitados em sua leitura e interpretação. 

Ao ler o relato do dilúvio em Gênesis, por exemplo, a própria bíblia não nos diz que relatos semelhantes de uma destruição da terra por uma inundação existiam na Babilônia. A epopéia de Gilgamés (ou Gilgamesh) falava, "exatamente como a Bíblia, sobre um homem que viveu antes e depois de uma gigantesca catástrofe das águas" (KELLER, 1960, p. 46).

Sendo a bíblia (assim como a religião) um produto cultural, de determinada época e povo, não é de se admirar que nela encontremos diversas referências então à astrologia, arte que gozava de grande prestígio na antiguidade. Apesar dos judeus não adorarem os astros como deuses, a exemplo de diversos povos, isso não significa que eles estiveram completamente imunes a qualquer outra influência dessa arte. E não só no Antigo Testamento encontramos referências ao estudo dos astros, mas também no Novo Testamento.

Para citar apenas um exemplo, lemos no livro de Gênesis (1:14), no relato da criação, que Deus disse: "Haja luzeiros no firmamento dos céus, para fazerem separação entre o dia e a noite; sejam eles para sinais, para estações, para dias e anos."

Uma linha de interpretação aponta para o fato de que os "sinais" são exatamente uma referência à astrologia. Deus colocou os astros no céu para que pudessem ser lidos e interpretados, para que pudessem fornecer informações sobre eventos na terra.

O comentário a esse versículo que encontramos na Bíblia de Estudo Almeida diz que o trecho "para sinais, para estações", em sentido literal é "os tempos determinados, ou seja, as estações do ano e as festas religiosas correspondentes." No entanto, com um pouco de atenção podemos perceber que essa explicação é parcial, pois nada diz sobre os tais "sinais".

Mas a referência mais clara à astrologia se encontra no Novo Testamento, no relato do nascimento de Jesus. Lemos em Mateus 2.1,2 que 

"Tendo Jesus nascido em Belém da Judéia, em dias do rei Herodes, eis que vieram uns magos do Oriente a Jerusalém. E perguntavam: Onde está o recém-nascido rei dos judeus? Porque vimos a sua estrela no Oriente e viemos para adorá-lo."

Segundo o comentário da Bíblia de Estudo Almeida, esses magos eram "... de um país oriental não especificado, que estudavam os astros e viam neles sinais da história humana."

O interessante é que o texto bíblico em nenhum momento mostra qualquer sinal de desaprovação ao fato desses magos terem chegado a Jesus por indicação dos "astros". Mais interessante ainda, porém, é atentar para o fato de que esses magos conseguiram ler nos astros a mensagem de que o rei dos judeus havia nascido. 

Dessa forma, perguntamos: não seria esse relato bíblico uma concordância tácita de que é possível ler nos astros informações que corresponderiam a eventos na Terra? A bíblia, como já afirmamos, não mostra desaprovação à atitude dos magos; pelo contrário, mostra que a leitura que esses astrólogos orientais fizeram dos astros estava correta, pois de fato o rei dos judeus havia nascido.

O evento astronômico que esses magos presenciaram, e que ficou conhecido na história como a "estrela de Belém", foi estudado pelo matemático imperial e astrônomo da corte Johannes Kepler, em 1603. No dia 17 de dezembro deste mesmo ano, Kepler estudava a aproximação de dois planetas, o que os sábios chamam de "conjunção". Algumas vezes dois planetas se aproximam tanto um do outro que parecem uma única estrela maior e mais brilhante. Naquela noite, a conjunção que Kepler estava observando era o encontro de Saturno e Júpiter na constelação de Peixes (KELLER, 1960, p. 293).

Ao repassar suas anotações, Kepler de repente se lembrou da nota dum escritor judeu chamado Abarbanel, que aludia à extraordinária influência que os astrólogos judeus atribuíam a essa constelação. Segundo eles, o Messias viria por ocasião duma conjunção de Saturno e Júpiter na constelação de Peixes (Ibid.).

Kepler então se dispôs a calcular, e voltando para trás o relógio do tempo, descobriu que essa mesma conjunção ocorreu por volta do ano 6 ou 7 a.C. Ao consideramos, no entanto, que nosso calendário tem um atraso de aproximadamente 6 anos, veremos que tanto o nascimento de Jesus quanto esse evento astronômico aconteceram na mesma época.

O significado desse evento, para os magos orientais (não-judeus) foi o seguinte, de acordo com Keller (1960): 

Os observadores do céu orientais atribuíam a cada estrela, como astrólogos, uma significação particular. Segundo a concepção dos caldeus, os Peixes eram o signo do Ocidente, das terras do Mediterrâneo; segundo a tradição judaica, eles eram o signo de Israel, o signo do Messias. A constelação dos Peixes encontra-se no fim duma velha e no começo duma nova trajetória do Sol. Nada mais lógico do que eles verem nisso o fim duma velha e o começo duma nova era!

Júpiter foi considerado por todos os povos e em todos os tempos como a estrela da sorte e da realeza. Segundo a velha tradição judaica, Saturno deveria proteger Israel; Tácito comparava-o ao Deus dos judeus. A Astrologia babilônia considerava o planeta do anel o astro especial das vizinhas Síria e Palestina.

Essa aproximação, portanto, de Júpiter (que significava realeza) e Saturno (a estrela, o protetor do povo judeu) na constelação de Peixes (signo de Israel) significa "o nascimento do rei dos judeus", o nascimento do Messias.

E foi ao observar esse evento astronômico que os astrólogos orientais, chamados na bíblia de "magos", tiveram conhecimento de que esse grande evento havia ocorrido: o rei dos judeus havia nascido, pois Júpiter e Saturno haviam entrado em conjunção na constelação de Peixes.


REFERÊNCIAS:

KELLER, Werner. E a Bíblia tinha razão. 5. ed. São Paulo: Edições Melhoramentos, 1960.

BÍBLIA. Português. Bíblia de Estudo Almeida. Barueri - SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999.

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  1. Excelente. O Cristianismo é um pano retalhado de várias outras religiões. Acredito que haja um motivo para isso! Assim como o Velho Testamento aponta para o nascimento de Cristo, todas as outras manifestações religiosas tem a essência cristã. Insano meu comentário, mas tudo bem!
    E também o fato de que para ser aceito, o Cristianismo tenha se vestido das religiões já conhecidas para ser melhor entendida e aceita!

    Mas que há muito esoterismo e misticismo enfurnados no cristianismo, não há dúvida!

    Muita boa sorte!

    Bruna Geovanini

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  2. Astrologia tem ligação direta com Deus.

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